"Dante"
Já estávamos na quarta injeção e eu inventava formas de tirar o foco da agulha, usando uma tática nova a cada noite. Eu estava ansioso com aquela fertilização, mas tentava esconder dela para que ela não se sentisse pressionada. Contudo eu tinha uma outra preocupação que nem o Murilo sabia ainda. Coincidentemente, desde que as injeções da Valentina começaram, eu estava sentindo os sintomas do tumor mais presentes, mais fortes. Eu tentava disfarçar a maior parte do tempo, mas fingir que eu estava bem quando a sala parecia girar era muito cansativo.
Eu fui para a cama exausto e acordei no meio da madrugada com a terrível sensação de que o meu peito estava sendo esmagado por um bloco de gelo. Abri os olhos na penumbra do quarto e tentei puxar o ar, mas os meus pulmões falharam. Uma náusea violenta e ácida atingiu o meu estômago de uma vez só, e quando tentei mover a mão direita, percebi que os meus dedos estavam tremendo de forma descontrolada. Meu corpo inteiro estava empapado de um suor frio e calafrios absurdos faziam os meus dentes estalarem.
Olhei de lado. Valentina continuava dormindo profundamente, com o cabelo espalhado pelo travesseiro. Eu tentei me afastar em silêncio. Eu precisava ir ao banheiro antes que ela acordasse e me visse naquele estado deplorável. Coloquei os pés para fora da cama, mas as minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Me apoiei nas paredes, me arrastando na escuridão até o banheiro. O meu coração estava disparado e eu estava em pânico.
Meu cérebro começou a bombardear os piores cenários: a sentença de morte estava se aproximando do cumprimento. O tumor estava devorando as minhas funções cerebrais mais rápido do que o Dr. Hércules previu. O relógio estava correndo rápido demais. Eu realmente achei que fosse morrer ali no banheiro.
Parei em frente à pia e tentei focar os olhos no espelho, mas a minha visão borrou. As minhas forças se esvaíram por completo e o meu corpo desabou de joelhos contra o piso de mármore gelado. Bati com o ombro na bancada da pia, soltando um gemido abafado de dor antes de sofrer um apagão real. Tudo sumiu. Era isso, a morte era o vazio.
- Dante?!
O grito assustado da Valentina ecoou pelo banheiro logo em seguida. Com certeza o barulho do meu corpo colidindo com o chão a havia despertado. Ouvi o som dos passos rápidos dela correndo pelo piso e, um segundo depois, suas mãos quentes seguraram os meus ombros com uma força que eu não sabia de onde vinha.
Abri os olhos com dificuldade, tentando lutar contra a tontura avassaladora que fazia o teto girar e o meu estômago vir à boca. A Valentina estava de joelhos no chão ao meu lado, vestindo apenas uma camiseta folgada. O rosto dela estava completamente pálido, os olhos castanhos esbugalhados em um pânico legítimo e lágrimas já rolavam pelas suas bochechas. Toda a pose dela estava desfeita, ela estava apavorada por mim.
- Dante, fala comigo, por favor! - Ela soluçou, a voz trêmula ecoando nas paredes. Ela pegou uma toalha e começou a limpar o suor frio da minha testa com os dedos trêmulos. - O que você está sentindo? Olha para mim, Chicletinho! Puxa o ar! Respira comigo, vai!
Ela puxou a minha cabeça para o peito dela, me abraçando com uma força possessiva e desesperada, colando o meu rosto na curva do seu pescoço. Sentir o cheiro de amêndoa doce da pele dela e o pulsar desgovernado do seu coração foi a única coisa que me impediu de apagar de vez. Apoiei as minhas mãos trêmulas na cintura dela, tentando me fixar na realidade.

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