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Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal romance Capítulo 59

"Aroldo"

*** Antes da ligação para a Valentina:

O ventilador na parede do meu escritório girava em um ritmo lento e barulhento, apenas espalhando o ar abafado e a poeira pela sala. Eu estava terminando de preencher uma guia de transferência de posse, calculando a porcentagem que eu levaria naquela transação, quando a porta de vidro fosco foi empurrada sem nenhuma cerimônia. Eu quase mandei para os inferno, as pessoas nesse escritório desconheciam a cortesia de bater na porta.

Mas antes que eu falasse, um sujeito magro, com cara de tédio, vestindo um terno cinza sem graça, caminhou até a minha mesa de compensado e jogou um envelope pardo timbrado bem em cima das minhas guias.

- Senhor Aroldo Camargo? - O homem perguntou de forma mecânica. - Intimação oficial do poder judiciário. O senhor está formalmente notificado da reabertura do inventário de bens de espólio de seus falecidos parentes e do bloqueio preventivo de urgência de ativos. Assine aqui.

Eu dei uma risada curta. Era inacreditável! Olhei para ele de má vontade e peguei a caneta sobre a mesa.

- Reabertura de inventário? Ativos bloqueados? Você deve ter entrado no endereço errado, meu amigo. - Eu resmunguei, assinando o papel de qualquer jeito só para me livrar do estorvo. - Eu sou despachante imobiliário há vinte anos neste bairro. Isso deve ser de algum cliente e nem deveria estar vindo para mim. Suma da minha sala.

O oficial de justiça pegou a prancheta de volta sem dizer uma única palavra e saiu batendo a porta. Eu bufei de raiva, ajeitando os meus óculos de grau na ponta do nariz, e comecei a ler os papéis que ele me entregou. A sala girou, o chão desapareceu e eu me recostei sem acreditar no que estava diante dos meus olhos. Eu peguei o celular na gaveta da mesa para verificar o aplicativo do banco. Eu precisava pagar a prestação do carro da minha filha e a fatura do cartão de crédito da minha esposa, que adorava gastar, justificando que nós éramos classe média alta. A verdade é que sem o dinheiro que a Valentina levava pra casa ficou mais apertado e eu despachei minha sobrinha e minha mãe para diminuir as despesas, mas isso parecia ter sido infrutífero.

Quando digitei a senha e a tela do banco carregou, o meu coração parou de bater e eu não conseguia mais respirar. O saldo da conta corrente exibia duas linhas vermelhas escandalosas com a palavra: BLOQUEADO JURÍDICO. Tentei acessar o fundo de reserva da aposentadoria da minha mãe que eu gerenciava. ZERADO POR ORDEM JUDICIAL. Senti um suor frio e ácido brotar instantaneamente na minha testa, ensopando o tecido da minha camisa. Senti um nó fechar a minha garganta.

- Mas que porra é essa?! - Eu gritei para as paredes vazias da sala, as minhas mãos tremendo tanto que quase derrubei o aparelho no chão.

A fúria me cegou em segundos. Eu peguei os papéis que o oficial tinha entregue. Valentina! Aquela vadia insolente. Aquela garota problemática que eu criei, o fardo que eu carreguei... ela estava me processando. Ela tinha limpado as minhas contas e bloqueado os meus bens. Mas de onde uma dançarina vulgar como ela, que mal tinha dinheiro para pagar o aluguel daquele prédio caindo aos pedaços que foi demolido, teria tirado dinheiro para pagar um advogado que conseguia realizar aquelas manobras jurídicas?

Então eu me lembrei, ela disse que havia se casado. Eu precisava descobrir isso, quem era o gigolozinho que estava dando a ela toda aquela marra. Eu precisava verificar aquela curatela. Eu precisava de um advogado. Eu olhei para a última folha, a assinatura do advogado dela, Murilo Dornelles... eu nunca tinha ouvido falar.

Mas antes de qualquer outra coisa, eu liguei para a Valentina. Aquela sonsa ia ouvir poucas e boas. Eu não ia engolir um desaforo daqueles...

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