"Valentina"
Eu sempre sentia paz e conforto quando entrava no Residencial Sereno, mas desta vez, entrar ali acompanhada por aquela comitiva bizarra parecia a cena de um filme de máfia. O Dante caminhava ao meu lado com a sua postura impecável, o Murilo com o seu habitual sorriso de canto, e para fechar o bloco, Elo Perdido Um e Elo Perdido Dois vigiavam os flancos com os óculos escuros no rosto.
Para a minha alegria, a moça na recepção nos informou com um sorriso simpático que a minha avó não estava no quarto. Ela havia se recusado a ficar confinada no quarto e estava passando a tarde na movimentada sala de jogos anexa.
Fomos guiados até o imenso salão de vidraças francesas e, assim que empurramos as portas, o meu peito se encheu de uma alegria que me fez engolir o choro. A Vó Isabel estava sentada em uma mesa redonda de mogno, com o xale de bordado fino que o Dante deu cobrindo os seus ombros, as bochechas coradas e rindo alto no meio de uma rodada animada de cartas com três senhoras dondocas da alta sociedade que também moravam ali. Era uma cena deliciosa de ver.
No segundo em que os meus saltos estalaram no piso e os dois seguranças gigantes paralisaram na entrada do salão chamando a atenção de todos, a minha avó ergueu os olhos. O rosto dela se iluminou de um jeito que eu não via há anos. Ela largou o baralho na mesa e se levantou da cadeira com uma agilidade que me surpreendeu.
- Olhem só, meninas! O meu neto lindo e a minha Tininha chegaram! - A minha avó exclamou em alto e bom som, estufando o peito com orgulho para o salão inteiro ouvir.
As dondocas da mesa esticaram os pescoços, os olhos esbugalhados perante a imponência da comitiva.
- Bel a sua neta é mesmo muito linda! - Uma das senhoras comentou.
- É e ela vem todos os dias visitar a Bel. - A outra suspirou. - Quem dera meus netos viessem me ver pelo menos uma vez por semana.
O Dante, demonstrando todo o seu refinamento, caminhou até a mesa com passos lentos e elegantes, curvou-se com total naturalidade diante da minha avó e depositou um beijo suave no dorso da mão dela, antes de cumprimentar cada uma das amigas dela com uma gentileza charmosa que fez as velhinhas suspirarem e ajeitarem os cabelos no mesmo segundo.
- Boa tarde, Vó Isabel. Peço desculpas por invadirmos o seu torneio, mas a Valentina e eu fazíamos questão de desfrutar da sua companhia esta tarde. E trouxemos um amigo. - O Dante pronunciou com a sua voz doce de neto perfeito.
- Ah, meu filho, vocês podem invadir o que quiserem! E eu lembro daquele bonitão. - A minha avó levou a mão ao rosto, faceira como uma menina tímida.
A enfermeira se aproximou e sugeriu que, como a minha avó não queria voltar para o quarto porque o dia estava lindo demais, nós fôssemos para a confortável sala de leitura ao lado para termos mais privacidade.
Nós caminhamos até o outro salão e fomos nos sentar num canto composto por poltronas vitorianas de veludo e estantes imensas de madeira recheadas de livros que davam vista para os jardins floridos. Assim que nos acomodamos, uma funcionária entrou carregando uma bandeja com café.
- Querida, seria possível conseguir um daqueles pudinzinhos de baunilha? - O Murilo perguntou para a enfermeira com um sorriso encantador.

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