"Valentina"
O sábado amanheceu com um sol dourado e generoso coroando o dia na piscina que eu havia programado, mas o clima naquela casa tinha um ar frio que parecia o prenúncio de que estava longe de encontrar a paz de um fim de semana comum. Eu estava na copa da cozinha, de shorts jeans e regata, conferindo com a Dona Marta se a bandeja de petiscos, as frutas e os drinques para a beira da piscina estavam devidamente organizados, assim como o planejamento do almoço. Eu havia prometido um dia de sol para a Tati e ninguém ia estragar a minha diversão, nem que eu precisasse arrancar a cabeça de alguém e pendurar na minha barra do hall para servir de aviso.
- D. Marta, como sempre a senhora não falha. Está perfeito! Muito obrigada. - Eu sorri para ela.
- Posso falar uma coisa, Sra. Montenegro? - Ela pediu um tanto hesitante.
- O que, vai dizer que eu estou no lugar errado? - Eu ri e ela sorriu para mim.
- Acho que é o contrário. A senhora está no lugar certo. O Sr. Dante sorri com você e ele até está muito melhor depois que a senhora passou a cuidar para que ele se alimentasse bem. E a senhora coloca esses três folgados em seus lugares. - Ela me olhou com um sorriso sincero. - Quando eu te vi chegar aqui eu pensei que a senhora não ia durar no meio dos lobos. Eu senti até pena, porque sei como eles são. Mas a senhora mostrou quem manda e que não tem medo deles. Eu fiquei impressionada.
- D. Marta, eu venho de um lugar em que eu tinha que sobreviver aos leões todos os dias. Esses três... não me metem medo. E eu não vou deixá-los passar por cima do Dante.
- Conta comigo! - Ela me olhou com um meio sorriso. - E eu gostaria de agradecê-la, em meu nome e em nome das duas funcionárias da cozinha. Aquele dinheirinho do inútil que a senhora mandou dividir entre nós veio em uma ótima hora.
- Ah, gostei de saber disso! - Eu sorri.
O som dos saltos estalando no piso anunciou a chegada da tempestade. A Aurélia entrou perfeitamente vestida para uma reunião de diretoria que ele nem participava, em plena manhã de sábado, maquiada e com os cabelos impecáveis como se tivesse acabado de sair do salão de beleza, mas o seu rosto estava carrancudo e a boca retorcida em uma careta de nojo.
- Marta, por que você ainda não serviu o café da man... Mas o que é isso, Marta? Uma fritura logo cedo na minha cozinha? Você sabe que eu não gosto desse tipo de comida pesada! - A Aurélia reclamou com aquela sua pose de dondoca.
- Mas a comida não é pra você, perua! Quer comer? O fogão está logo ali, eu dei folga para as funcionárias da cozinha e a D. Marta também já está indo. Elas só voltam na segunda.
- Bom, vou levar essas bandejas para a piscina. Com licença. - A D. Marta se retirou e eu sabia que tinha ganhado aliadas nessa casa, até porque, aqueles três encostados tratavam os funcionários muito mal.
- Depois a senhora pode ir, D. Marta. - Eu falei sobre o ombro. - Ah, Aurélia, na verdade eu dei folga para todos os funcionários da casa. Inclusive os motoristas, porque eu soube que todo mundo aqui é habilitado a dirigir. Então, não faça bagunça pela casa ou você terá que arrumar.

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