"Otto"
O som do tic-tac do relógio no meu pulso parecia ditar a contagem regressiva para a minha própria execução. Eu andava de um lado para o outro no meu quarto, afrouxando o nó da minha gravata e sentindo o suor frio escorrer da minha nuca. Eu estava em maus lençóis. A auditoria que o Dante resolveu fazer no meu departamento de uma hora para outra estava me sufocando. Eu passei a noite inteira trancado na holding tentando queimar arquivos e justificar o sumiço daquelas notas fiscais fraudulentas que eles estavam me cobrando, mas os auditores fiscais do meu primo também não dormiram e confiscaram tudo antes que eu pudesse me blindar totalmente.
E quando eu estava saindo da empresa, ainda esbarrei no Murilo Dornelles, que foi taxativo ao dizer que o balanço final da auditoria seria entregue na segunda feira. Se aquela auditoria encontrasse algum rastro do que eu andei fazendo, a minha demissão por justa causa seria uma certeza e eu só contava em não ser preso porque o Dante não ia querer um escândalo.
A porta do meu quarto foi aberta sem cerimônia e a Aurélia entrou. Ela estava impecavelmente vestida e parecia ter acabado de chegar do salão de beleza, mas a pose de madame intocável dela estava abalada, claramente ela estava com os nervos abalados. Seu rosto estava carrancudo, as narinas dilatadas e a boca retorcida de desgosto.
- Nós precisamos fazer alguma coisa, Otto! Fomos completamente reduzidos a nada dentro desta casa por aquela dançarina de boate barata! - A Aurélia sibilou histérica, os dedos trêmulos de raiva. - O Dante colocou aquela vagabunda aqui para nos humilhar e eu não suporto mais. Sabe o que ela fez essa manhã? Colocou uma música altíssima e se esfregou naquele cano seminua. No hall de entrada da minha casa! Ela transformou o meu hall de entrada em um bordel barato!
- O hall de entrada é o menor dos nossos problemas agora, Aurélia! - Eu esbravejei. - A auditoria está triturando o meu departamento. O meu pescoço está colocado sobre a mesa enquanto o carrasco amola o machado. Mas o pior não é isso. O pior é o Dante. Você já olhou bem para o meu primo nas últimas quarenta e oito horas?
A Aurélia se calou, o peito arfando enquanto processava a minha pergunta. Mas a madame estava tão preocupoada com o hall de entrada que se esqueceu do resto.
- O que tem o Dante? Ele está com os dias contados, Otto… o tumor cerebral agressivo inoperável é uma sentença factual… - Ela murmurou, mas a voz dela perdeu um pouco da certeza.
- Não, não está e você sabe disso! - Eu passei as mãos no rosto em puro desespero. - Você não reparou, Aurélia, a vitalidade que ele está exibindo? As mãos daquele moribundo não tremem mais um único milímetro. A neblina e os apagões desapareceram como num passe de mágica. Os sintomas desapareceram, Aurélia! E sabe por quê?
O rosto da Aurélia despencou por completo no mesmo segundo. Sem os sintomas debilitantes e o laudo de debilidade física extrema referendado pelo médico que tinha voltado atrás na última hora, a nossa urgência de interdição civil por invalidez no Conselho não se sustentou.
- Aaahnn... - A Aurélia exalou. - Nós precisamos agir, Otto. Abreviar a condição do meu enteado. Antes que ele pense que está se sentindo tão bem que pode desafiar as orientações médicas e para o nosso desespero engravide aquela dançarina exótica.
- Eu não sei, Aurélia, está tudo meio estranho. Para piorar, o Dr. Hércules Medina roeu a corda de vez. O médico está apavorado com a ameaça de processo ético-disciplinar e se recusou a nos dar qualquer documento novo ou referendar as nossas acusações onde for.
Nós estávamos encurralados e tudo por culpa do surgimento repentino daquela dançarina gorda.
- Nós não podemos recuar agora, Otto… nós já fomos longe demais. - A Aurélia sussurrou com a voz fria e cortante de quem não tem mais nada a perder. - Nós precisamos agilizar os nossos planos.
Eu olhei bem para ela, o meu coração batendo acelerado. Eu odiava o Dante, sempre odiei. Ele sempre foi o filho perfeito, bonito, inteligente, esperto... a mão direita do meu tio e eu era apenas o sobrinho, nunca teria chance de ser o herdeiro. O Dante tinha tudo o que eu queria e só conseguiria se o Dante não existisse.

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