"Dante"
Assim que a Valentina saiu da sala e os saltos dela pararam de ecoar pelo corredor, eu soltei o ar devagar, tentando me concentrar no que o Murilo dizia, mas com a cabeça repetindo as imagens e os sons da Valentina. A lembrança das curvas da Valentina de biquíni vermelho no sábado e do momento que compartilhamos na cama ainda queimava no meu peito.
O Murilo interrompeu a discussão técnica sobre os prazos de liquidação de ativos que estávamos fingindo ter. Eu sabia que ele tinha algo a me dizer e não podia ser perto da Valentina porque ele havia me mandado uma mensagem. E eu sabia que a Encrenca estava com a cabeça muito longe do escritório e apenas esperando uma oportunidade para escapar para a recepção.
- Finalmente a Valentina desceu para a recepção. Eu já não aguentava mais segurar a notícia. - O Murilo murmurou, abaixando o tom de voz e virando a tela do tablet para mim. - Eu acabei de receber a notificação que você tanto queria.
Senti o meu corpo tensionar instantaneamente, minhas mãos gelaram e a minha boca ficou seca. Apoiei os cotovelos na mesa, fixando os meus olhos no meu amigo.
- Qual deles respondeu e o que disse sobre os meus exames, Murilo? - Eu cobrei com a minha voz arranhando a garganta.
- O Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, concluiu a primeira triagem. Te colocaram em regime de prioridade máxima. - O Murilo revelou, a voz solene indicando que o peso do que aquilo significava. - O chefe de neurologia deles está interessado no seu caso, Dante. Ele citou uma anomalia inexplicável nos seus exames e o padrão real das suas imagens cerebrais mostra o que parece um caso raro. O médico americano disse que talvez você se encaixe no programa experimental deles. Mas para termos o veredito final você terá que viajar. Você precisa refazer os exames e passar pela avaliação de uma junta médica.
O meu coração deu um solavanco violento no peito. Uma viagem, novos exames, uma junta médica. Isso era muito fácil, eu iria imediatamente. Uma esperança! E junto com ela a agonia de encontrar uma alternativa para não deixar a Valentina começou a queimar em mim. No entanto, o Murilo estendeu a mão, interrompendo o fluxo dos meus pensamentos.
- Não se apresse, você tem um problema de agenda, Dante. No próximo final de semana, temos o evento beneficente anual de gala das Indústrias Montenegro. Muita gente importante presente e os convites já foram despachados. E muita expectativa. É a prova de fogo da Valentina, o primeiro baile formal dela como a Sra. Montenegro. É nesse evento que ela será vista e, você sabe, as pessoas vão defini-la, ou ela é a sua substituta natural ou ela será a derrocada da empresa.
- Eu já tinha me esquecido. O grande debut! - Eu bufei.
- É assim que o jogo funciona. - O Murilo me lembrou. - Você não pode faltar de jeito nenhum, ou a Aurélia e o Otto usarão a sua ausência para forjar um boato de invalidez ou qualquer coisa do tipo.
Eu abri a minha agenda na tela do meu monitor e conferi, com o cenho franzido, que aquela semana havia se tornado uma panela de pressão.
- A nossa semana está completamente tumultuada, Murilo. - Eu constatei em irritado. - O balanço final da auditoria contra o Otto fecha até o final da tarde da quarta-feira. E, além do baile, nós temos o agendamento da clínica de fertilização amanhã de manhã. Eu preciso acompanhar a Valentina para o procedimento de coleta dos óvulos. Mesmo com essa possibilidade de um tratamento, eu não posso arriscar, um herdeiro é prioridade. Além do mais, é o nosso filho que vai garantir tranquilidade para a Valentina... - Eu respirei fundo. - E vai ser uma parte de mim que vai ficar com ela quando... acontecer.
- Eu entendo, Dante. - O Murilo assentiu com a cabeça, processando a urgência. - Mas vamos ser positivos, pelo que eu li sobre o tratamento experimental, se você se enquadrar no perfil, ele pode te dar mais algum tempo ou até a possibilidade de uma cirurgia para retirada do tumor, o que te daria uma possibilidade de cura. Eu vou te encaminhar tudo, os estudos são bem interessantes.
- Faça isso! - Eu concordei, prestes a passar para o próximo compromisso na agenda para ajustar uma data para a viagem.
- E, mudando um pouco de assunto, mas não muito... como estão as coisas com a Tininha?
- A maldita intimidade do diminutivo! - Eu praguejei e ele riu. - As coisas estão bem demais. A Valentina é... a Valentina! - Eu sorri. - Nós levamos a Vó Isabel para almoçar, tivemos um domingo maravilhoso.

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