"Valentina"
A manhã de segunda feira na holding não parecia o início de uma semana comum, parecia o prenúncio de uma tempestade com todo mundo tenso com a auditoria chegando ao fim. Mas eu tinha a minha própria tempestade na minha cabeça. Eu estava sentada na cadeira em frente a mesa que o Dante havia mandado instalar para mim na sala dele. Mas a minha mente não conseguia se concentrar nas planilhas. A verdade era que o meu corpo ainda vibrava com o final de semana, especialmente a noite de sábado e a doçura do domingo.
O Dante estava totalmente concentrado no trabalho, exalando uma imponência absurda. Eu o observei por um momento, grata pelos sintomas da doença ainda não terem voltado, embora eu tivesse medo que voltassem piores. Eu estava enlouquecendo. Como eu fui me envolver com um homem que tinha os dias contados? Era para ser só um contrato, algo tipo trabalho, mas deu no que deu. Eu precisava desabafar com alguém, porque agora eu não sabia mais o que seria de mim sem aquele mauricinho.
Aproveitando o momento em que o Murilo entrou na sala dizendo que precisava de um minuto e eles começaram uma discussão técnica profunda sobre os prazos de liquidação de ativos, eu me levantei devagar e fiz um sinal discreto para o Fausto. A minha cabeça precisava de um respiro e a minha alma precisava cumprir uma necessidade básica da sobrevivência feminina: fofocar com a minha melhor amiga sobre a noite de sábado.
- Bom dia, Tatiana. Os ricos já começaram a te dar muito trabalho hoje ou a rádio peão ainda está calma? - Eu provoquei me debruçando sobre o balcão da recepção.
- Tina! Putz, o clima neste prédio está tenso! - A Tati murmurou de volta, inclinando-se na minha direção com os olhos brilhando, louca para fazer uma fofoca. - Os assessores do Otto passaram a manhã correndo de um lado para o outro com pastas cheias de papéis, com uma cara de enterro que dá gosto de ver. Mas deixa os ratos para lá! Me conta... como foi o resto do final de semana?
- Vamos nos sentar ali no cantinho. Preciso falar com você. - Eu apontei para as poltronas que ficavam no fundo do hall e nós fomos caminhando até lá. - Você e o Murilo se deram bem.
- Ah, ele é legal. Não é esnobe. Ele me levou em casa e vou te falar, ele é um papo bom do caralho, amiga! E ele é muito engraçado. Nós ficamos amigos. Até combinamos de ir visitar a Vó Isabel essa semana na hora do almoço. - A Tati falou com um sorrisão.
- Ah, que bom! Ela vai gostar. Nós a levamos para almoçar ontem. A ideia foi do Dante e ele foi muito lindo com ela. - Eu sorri e me sentei.
- O jeito mais fácil de chegar ao coração da determinada Valentina Torres. - A Tati debochou. - Você tá caidinha por ele amiga, tipo papo de paixão avassaladora.
- Porra, Tati! - Eu bufei. - Acho que sim. Aquele mauricinho... ele podia ser só um pouquinho chatinho, mas não, tinha que ser fofo, gostoso e cheio de... conversa mole!
- Ai, Tina! O cara tá condenado e você se apaixona por ele. Caramba!
- Eu vou ter um filho dele, Tati, me apaixonar é a coisa mais normal nessa bagunça. - Eu tentei me justificar.
- Ô minha amiga, o problema é que você vai sofrer e se eu te conheço, e eu conheço, vai sofrer pelo resto da vida. - Ela deu um aperto leve na minha mão e eu sabia que ela tinha razão.
- Tati... aconteceu uma coisa...
- Xiiii! - A Tati revirou os olhos. - Quando você vem assim... vai solta a bomba.
- Sábado, depois que vocês foram embora... ai, Tati, eu me senti sobrecarregada, sabe?! A Agatha com aquelas coisas que ela faz...
- Aquilo é uma cobra invejosa, ela só quer te humilhar, Tina.
- É, eu sei e normalmente ela não me abalaria, mas com tudo isso... o Dante, os hormônios, aquele bando de sangue-suga na casa dele me infernizando... eu acabei me sentindo mal e eu me tranquei no banheiro pra chorar.

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