Lorenzo Narrando
O silêncio da cobertura é ensurdecedor. Eu caminho até a janela de vidro, encaro a cidade lá embaixo. Milhões de pessoas correndo como formigas, cada uma lutando pelo próprio espaço, pelo próprio pão. E aqui em cima, eu, Lorenzo Vasconcellos, sendo tratado como se fosse um moleque desocupado.
Um casamento. Um herdeiro.
Heitor acha que pode me encurralar. Não percebe que foi ele mesmo quem me ensinou a nunca aceitar coleira.
Ainda sinto o cheiro da presença dele no ar. Perfume amadeirado, caro, velho como a arrogância que carrega. Minhas mãos ainda tremem de raiva, mas minha mente já trabalha. Raiva é combustível, mas o plano é arma.
— “Encontre uma mulher digna.” — repito, em voz baixa, saboreando a ironia.
Mulher digna. Aos olhos de quem? Do conselho? Da imprensa? Do velho?
Respiro fundo, caminho até o bar da sala e sirvo um copo de uísque. O líquido âmbar desce queimando, e é exatamente a sensação que preciso agora: fogo que se transforma em clareza.
Eu poderia escolher qualquer uma. O mercado está cheio de socialites desesperadas por sobrenome, modelos que se venderiam por um assento ao meu lado, herdeiras prontas pra se jogar em um contrato de conveniência. Mas isso seria previsível. E eu nunca fui previsível.
E então, sem que eu controle, o nome retorna.
Helena.
A maldita faxineira que ousou esbarrar no meu caminho.
Por que ela? Talvez porque esteja fresca na memória. Talvez porque tenha me olhado como nenhum outro olha — não com bajulação, não com interesse, mas com medo genuíno. Ela não fingiu. Ela tremeu.
Meu pai quer uma mulher digna. O que pode ser mais “digno” — ou mais chocante — do que eu, Lorenzo Vasconcellos, surgir com alguém completamente fora do meu círculo? Uma garota simples. Anônima. Invisível.
Eu sorrio, um sorriso que mistura cinismo e perigo.
— Seria perfeito.
Porque, nesse jogo, não é sobre amor, nem sobre família. É sobre poder. Se eu escolher alguém improvável, eu desarmo todos. O conselho não vai ousar questionar, meu pai vai engasgar, a mídia vai enlouquecer. E, principalmente, eu terei o controle da peça que ninguém espera que eu mova.
Mas pra isso… eu preciso conhecer melhor a tal Helena.
Pego o celular. Ligo para Marta.
— Reforçando. Quero o dossiê completo da funcionária Helena Alves. Fotos, histórico, parentes, dívidas, tudo. Até mais tarde na minha mesa.
— S-sim, senhor. — ela gagueja.
Desligo. E sirvo outro gole de uísque.
Imagino a cara da garota quando eu a chamar. Vai tremer ainda mais. Talvez chore. Talvez implore. Pouco importa.
Ela vai ter que entrar nesse jogo, querendo ou não querendo, ela vai entrar.
[...]
Pouco tempo depois, Gabriel aparece na cobertura. Ele sempre vem sem avisar. Amigo desde a adolescência, parceiro em cada jogada, mas não menos pragmático.
— Seu pai passou aqui. — ele fala, largando a pasta na mesa.
— Passou. — confirmo, seco.
— O que ele queria dessa vez — ele observa.
Dou de ombros, e respondo.
— Ele quer me ver casado. Com herdeiro a caminho. Senão, ameaça tirar tudo o que eu tenho, olha só a ironia.
Gabriel solta uma risada baixa.
— Será que ele não te conhece o suficiente? Logo você, casado? eu pagaria muito pra ver... — fala sarcástico, servindo um copo de whisky pra si.
— Pois é. — digo, olhando fixo pro copo de uísque. — Mas talvez seja hora de jogar de acordo com a cartilha dele.
— Vai casar com alguma boneca de vitrine, então? — ele provoca, indo sentar no sofá.
Eu sorrio de canto.
— Não. Dessa vez, o meu pai vai se arrepender de me propor um casamento, ainda mais com as exigências dele. Detalhe, ele não quer que a " Escolhida " seja a Nicolle, porque segundo ele, a vida dela é muito exposta... aparece demais nas redes e como você sabe, somos discretos.
— Isso eu tenho que concordar com teu pai, a tua preferida não é uma boa escolha, mas se não for ela, seria quem? — Gabriel ergue a sobrancelha.
— Uma funcionária da empresa.
Ele me encara, incrédulo.

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