DUDA NARRANDO:
Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Pisava no acelerador da Range Rover como se isso pudesse me afastar de toda a humilhação e raiva que queimavam dentro de mim. Cada carro que eu ultrapassava era como uma lembrança da minha ingenuidade. A sensação de ser usada... por Renan... doía mais do que qualquer outra coisa. As lágrimas ameaçavam me cegar, mas eu me recusava a chorar.
Não agora.
Como eu pude ser tão estúpida? A conexão entre nós parecia tão real. Eu me entreguei a ele, corpo e alma, como nunca fiz com ninguém. E tudo o que ele fez foi me usar. Cada toque, cada olhar, cada palavra, tudo uma mentira.
Não era só o sexo, embora fosse intenso e viciante.
Era o jeito como ele me fazia sentir, como se eu fosse importante. Mas agora, tudo isso era uma piada de mau gosto.
— É por isso que as mulheres são consideradas fracas — eu gritei dentro do carro, batendo no volante com força. — Porque acreditam nos canalhas!
Quando finalmente avistei o prédio dele, as luzes da cobertura estavam apagadas. Estacionei um pouco distante, em uma posição estratégica, onde eu pudesse observar sem ser vista. Respirei fundo, tentando controlar a raiva, e tirei um baseado da bolsa. A fumaça foi como um alívio temporário, acalmando meus nervos e a tremedeira nas mãos.
— Ele não faz ideia de com quem está lidando — pensei, tragando profundamente.
Eu não era qualquer uma. Renan queria brincar? Ele não sabia com quem estava jogando.
Ele pensava que podia mentir para mim? Enganar-me? Renan estava prestes a descobrir quem eu realmente era.
Após alguns minutos fumando, senti que estava pronta. Peguei o celular e respirei fundo antes de discar o número dele. O jogo tinha começado, e eu estava disposta a ganhar. Quando ele atendeu no segundo toque, já percebi pela voz que algo estava errado.
— Hola, pimentinha, já está com saudades? — ele disse com uma falsa intimidade, com a voz dele me dando asco.
Fechei os olhos, mordendo o dedo para não gritar o que realmente sentia. Mas o jogo exigia paciência.
— Acreditaria se eu te dissesse que sim, Renato? — menti, deixando um toque de sedução na voz. — Você é como um vício. O que fez comigo, hein?
— Claro que acredito. Também estou viciado em você... — Ele murmurou com aquela voz rouca que, antes, me derretia. Agora, me fazia querer vomitar.
A raiva borbulhava, mas mantive o controle. Canalha!
— Você saiu tão rápido daqui de casa... e o problema é que eu comprei até uma lingerie nova para essa noite. — menti, tentando manter o tom leve, mesmo com o ódio corroendo cada célula do meu corpo.
Houve uma pausa. Eu imaginei o sorriso dele do outro lado da linha, achando que estava me enrolando.
— Hum... que delícia. Eu vim para o escritório resolver um assunto importante de trabalho. — Ele mentia descaradamente. — Por que você não vai para o meu apartamento e me espera lá só com essa lingerie?
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Mas não era desejo. Era repulsa.
— Claro, mi amor. Acho uma ótima ideia. — Respondi com a voz mais doce que consegui. — Quanto tempo você chega? Pra eu te esperar ansiosa...
— Daqui a uma hora, mais ou menos. Vou te enviar a senha da fechadura eletrônica por mensagem, pimentinha. Até daqui a pouco. — A voz dele estava tão convencida.
Ele achava que tinha tudo sob controle.
Pobre Renan.
— Até, meu bem. — Eu disse, desligando o telefone, meu estômago embrulhando com o esforço de fingir.
Assim que desliguei, gritei dentro do carro: Renan, eu vou acabar com você, desgraçado! Bati no volante, tentando liberar um pouco da raiva acumulada.
Respirei fundo, terminando de fumar o baseado enquanto organizava meus pensamentos. Estava no controle novamente. O tempo de me sentir uma tola tinha acabado.

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