RODRIGO NARRANDO:
Assim que entrei no escritório, o ambiente familiar me envolveu. Para quem não conhecia, era apenas uma sala qualquer; somente quem era da família sabia que não era bem assim. Meu pai caminhou até a mesa de mogno, onde estava o telefone. Ele apertou dois botões discretamente, e em questão de segundos, uma estante enorme se moveu, revelando uma passagem secreta. Mesmo sabendo da existência dessa sala desde que era pequeno, ainda era fascinante.
Um espaço de aço polido, confortável, com sofás de couro e uma parede inteira coberta por telas de câmeras e equipamentos de espionagem.
— Rodrigo, por que esse Renato me cheira a rato? — minha mãe disparou, impaciente, sem rodeios.
Ela cruzava os braços, com a postura tensa. Meu pai, do outro lado, já estava analisando algumas das telas, confirmando suspeitas.
— Filho, nós já pesquisamos a placa do carro dele — meu pai começou, com a voz grave e sem emoção — está alugado em nome de uma empresa fantasma. E, mais importante, percebemos a ausência de vocês dois após o jantar na sala.
Eu sabia que seria interrogado. Respirei fundo, endireitei a postura e fui direto ao ponto.
— Ele se chama Renan Venâncio. É o ex-marido da Micaela.
Minha mãe ergueu uma sobrancelha, um gesto que eu conhecia bem, indicando que estava prestes a explodir.
— E por que caralhos esse infeliz está atrás da sua irmã? — a irritação transbordava na voz dela.
Olhei para os dois, sentindo o peso da situação. Não podia evitar o que estava para dizer, mas também não queria dar mais preocupações.
— O desgraçado quer vingança pelos chifres que a Micaela colocou nele comigo. Enquanto eles ainda estavam casados. Ele já mandou incendiar os vinhedos dela. Está tentando me atingir usando a Duda. — Fiz uma pausa, sabendo que a próxima parte poderia piorar o clima. — Eu já o prensei no banheiro. Dei meu recado. Só não o matei porque você acabou de trocar o papel de parede lá recentemente.
— Ah sim, gastei milhares de euros naquele tecido da Dolce e Gabbana... — minha mãe começou, o tom calmo, mas com uma veia de sarcasmo. — Mas aquele bastardo foi muito ousado de vir até aqui te ameaçar e usar sua irmã.
Ela estava furiosa. Sabia reconhecer o perigo quando minha mãe chegava nesse ponto. Meu pai, observando tudo, interveio.
— Eu sempre disse que sair com mulher casada era um problema, meu filho. Quem planta vento, colhe tempestade. — Ele não estava errado, e eu sabia disso.
— Eu sei, pai. Mas vou resolver isso — falei sério, tentando manter a confiança.
Minha mãe, no entanto, não estava disposta a deixar isso em minhas mãos.
— Não, Rodrigo. Aquele bastardo mexeu com meus filhos. Veio à minha casa, sentou à minha mesa. Agora o problema é nosso.
Meu pai, sempre calmo e calculista, assentiu, mas trouxe mais informações para a mesa.
— Os seguranças me avisaram que ele trouxe um rapaz. Esse cara foi visto usando o banheiro dos fundos e andando pela casa.
A raiva subiu instantaneamente. Como pude deixar isso acontecer?
— Mas que merda. Ele deve estar me investigando — Eu disse, já imaginando o pior.
Quando me aproximei, ela estava parada como uma estátua, olhando fixamente para os portões. Os ombros dela tremiam levemente, e os olhos, inchados, brilhavam de lágrimas contidas. Eu sabia o quanto ela tentava se manter forte, mas aquilo estava a destruindo.
A puxei para meus braços, e ela cedeu, se apoiando em mim enquanto entramos para casa. O corpo dela tremia ainda mais forte agora que estava perto de mim, e tudo o que eu queria era que ela soubesse que não precisava ter medo.
Ela chorou silenciosamente contra o meu peito, completamente preocupada com a minha irmã, e eu senti uma onda de raiva se acumular no meu estômago. Não raiva dela, mas de tudo isso.
De Renan, de mim mesmo, da situação em que a coloquei.
Gisele não conhecia minha irmã Duda de verdade, ela não era uma mocinha frágil. Mas eu sempre soube que havia um motivo para meus pais a deixarem tão distante, morando fora do país. Eles a prepararam, a treinaram para ser forte. Minha mãe sempre fez questão de garantir que Duda soubesse se proteger, que fosse capaz de lutar com um homem mais forte, de atirar, e de ser perigosa se precisasse.
E Renan? Aquele imbecil não fazia ideia do perigo em que estava se metendo. Ele era um bom homem de negócios, sim, mas não era um mafioso, não sabia lutar, e, pelo que investiguei, mal sabia segurar uma arma. Ele achava que poderia nos intimidar, mas mal sabia ele que Duda ia destruí-lo.
Eu tinha certeza disso.
Mas Gisele... Ela não sabia de nada disso. E eu precisava contar a ela. Precisava falar sobre as partes mais obscuras do que fazíamos, sobre o verdadeiro legado da nossa família. Não era só o que aparecia nas fotos ou nas notícias. Era algo maior, algo que envolvia segredos, proteções, acordos. Era sobre a nossa sobrevivência. E agora, mais do que nunca, eu tinha que protegê-la e proteger nosso filho.
Eu a segurei com mais força, sentindo o corpo dela relaxar um pouco. Ter Gisele nos meus braços era um alívio. Eu podia sentir o quanto ela confiava em mim, o quanto dependia de mim naquele momento. Isso só tornava tudo mais difícil.
Precisava contar a ela, mas como? Não sabia por onde começar. Não queria assustá-la ainda mais, mas ela precisava entender que havia precauções que precisávamos tomar, principalmente em relação ao nosso filho. Tudo o que fazíamos, todo o controle que tentávamos manter, era para garantir a segurança daqueles que amávamos.
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