Entrar Via

Uma noite, uma vida romance Capítulo 13

RODRIGO NARRANDO:

O dia havia sido longo e cansativo. O mercado financeiro passava por uma instabilidade que exigia atenção total da minha equipe de operadores. Saí tarde do escritório, exausto, mas com a cabeça ainda cheia de gráficos e números, entretanto, mesmo depois de um dia estressante, havia algo que me animava: Micaela.

Ela havia finalmente saído da casa do marido, e nossa situação estava prestes a mudar. Talvez a ideia de assumir algo mais sério com ela estivesse começando a fazer sentido, embora eu sempre tenha priorizado a minha liberdade.

Micaela se tornou o caso mais longo que já tive, estávamos cada vez mais envolvidos um com o outro.

Eu havia prometido a ela que dormiria em seu apartamento naquela noite. Era engraçado como ela havia comprado um apartamento no mesmo prédio que o meu. Eu sempre valorizei morar sozinho, mas ela facilitou tanto nossos encontros que mal me incomodava.

Parei na farmácia que ficava no caminho para a minha cobertura, precisava repor o estoque de camisinhas. Minha vida sexual sempre foi ativa, e com Micaela as coisas estavam ficando cada vez mais frequentes.

Estacionei logo em frente, entrei e fui direto para a seção de preservativos. Eu conhecia aquele corredor bem demais. Passei os olhos pelas prateleiras, procurando algo que se adequasse ao meu tamanho, quando ouvi o barulho de algo metálico cair ao chão. Um frasco de barbeador rolou até meus pés.

Olhei para baixo, surpreso, e lá estava uma pequena criatura debaixo das prateleiras, mexendo nos cadarços do meu sapato.

— Quem é a mãe irresponsável que perdeu essa criança?— pensei.

Antes que eu pudesse mover um músculo, o bebê olhou para cima e nossos olhos se encontraram.

Algo naquele olhar me deixou inquieto. Havia algo familiar naquele rostinho de bochechas rosadas e cabelos castanhos lisos.

— Ei, o que você está fazendo aí, niño? — perguntei instintivamente, enquanto o pegava no colo.

Ele sorriu, com um sorriso inocente que mexeu comigo de uma forma inesperada.

A chupeta caiu de sua boca e ele começou a puxar meu colarinho, balbuciando palavras sem sentido.

Nesse momento, uma voz feminina, quase histérica, ecoou pelo corredor.

— Meu filho! Cadê você, Rodriguinho?

A mulher entrou no corredor, com os olhos arregalados de pavor. Ela congelou ao me ver com o bebê nos braços, ficando pálida como uma estátua.

Seu rosto... Era inconfundível.

Eu não estava acostumado a me lembrar das mulheres que conheci, mas aquela garota... Ela era a ninfeta com quem tive uma noite intensa em Cancún, durante um forte furacão, e a única que desapareceu antes que eu pudesse pedir seu número.

— Gisele? — perguntei, incrédulo.

— Mamã! — o bebê em meus braços exclamou, estendendo a mão para ela, que parecia finalmente sair do estado de choque.

— Ah... Olá. Pode me entregar meu filho? — ela pediu, com a voz trêmula, aproximando-se rapidamente para pegá-lo.

— Claro, encontrei ele no chão, mexendo nas coisas — expliquei, entregando o bebê a ela.

— Você está bem, meu amor? — Gisele perguntou ao bebê, conferindo-o com cuidado, enquanto eu observava aquela cena.

— Ele está bem. Eu o peguei antes que ele se machucasse — falei, tentando acalmar a situação.

Ela ajeitou o bebê no colo, a cesta de compras com pomadas, chupetas, leite, fraldas e carregando uma bolsa do outro lado, eu coloquei de volta as camisinhas que eu segurava na prateleira.

Eu não conseguia desviar o olhar dela.

Havia algo diferente nela, parecia mais cansada, talvez pelas olheiras profundas. Mas ainda era linda. O cabelo estava mais comprido, a roupa simples, mas prática, blusa de frio, camiseta branca, calça jeans e tênis.

E aquele bebê...

— Nossa, quanto tempo... — comentei, observando tanto ela quanto a criança. — Então você se casou?

Ela balançou a cabeça, com um sorriso tenso nos lábios.

— Ah, não... Sou mãe solo.

A revelação me pegou de surpresa. Eu observava o bebê e a semelhança com algo que eu tentava me lembrar, começou a me incomodar, ele não tinha os olhos claros, cor de mel dela, eram castanhos escuros e profundos.

— Qual o nome do seu filho? Acho que ouvi você chamando ele de Rodriguinho... — perguntei, sentindo algo crescer dentro de mim, algo que eu não queria admitir.

Eu me lembrei, sim, de ter usado um nome falso por causa de Micaela. Naquela época, eu não podia correr o risco de ser descoberto pelo marido dela.

— Gisele, houve uma confusão. Eu realmente usei outro nome por causa das circunstâncias que tive na viagem, mas meu nome verdadeiro é Rodrigo — tentei explicar.

Ela riu, sem humor.

— Claro, você estava com uma mulher casada, agora me lembrei — ela me olhou com desdém

Eu confirmei com um aceno, envergonhado.

— Mas aquela noite gerou uma vida — Gisele disse, olhando para o bebê, suavizando a expressão.

— E você deu meu nome pra ele? — perguntei, ainda incrédulo, mas agora com um sorriso leve, eu sentia no meu coração que aquela criança era minha.

— Era tudo o que eu sabia sobre você... — ela respondeu.

A ficha ainda estava caindo.

Eu tinha um filho.

Um filho que nunca planejei, mas que agora estava bem diante de mim, olhando-me com a mesma curiosidade com que eu olhava o mundo na minha infância.

Era uma sensação estranha, uma mistura de incredulidade e desconforto, porque Gisele não era a primeira mulher a fazer isso. Não, já houve outras, tentando aplicar o famoso golpe da barriga. Pessoas que viam no meu sucesso uma oportunidade de se beneficiar.

Eu sempre soube me defender. Sabia identificar quando alguém estava tentando tirar proveito. Mas havia algo diferente em Gisele. Ela não tinha o olhar ganancioso de outras mulheres que, em algum momento, tentaram me convencer de que eu era o pai de seus filhos. Não.

Ela parecia… magoada, exausta. Não estava atrás de dinheiro. Pelo menos, não parecia.

— Eu já ouvi essa história antes, — pensei, quase automaticamente.

Meu cérebro se esforçava para processar tudo que estava acontecendo, mas a lógica parecia ter me abandonado.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Uma noite, uma vida