RODRIGO NARRANDO:
O dia havia sido longo e cansativo. O mercado financeiro passava por uma instabilidade que exigia atenção total da minha equipe de operadores. Saí tarde do escritório, exausto, mas com a cabeça ainda cheia de gráficos e números, entretanto, mesmo depois de um dia estressante, havia algo que me animava: Micaela.
Ela havia finalmente saído da casa do marido, e nossa situação estava prestes a mudar. Talvez a ideia de assumir algo mais sério com ela estivesse começando a fazer sentido, embora eu sempre tenha priorizado a minha liberdade.
Micaela se tornou o caso mais longo que já tive, estávamos cada vez mais envolvidos um com o outro.
Eu havia prometido a ela que dormiria em seu apartamento naquela noite. Era engraçado como ela havia comprado um apartamento no mesmo prédio que o meu. Eu sempre valorizei morar sozinho, mas ela facilitou tanto nossos encontros que mal me incomodava.
Parei na farmácia que ficava no caminho para a minha cobertura, precisava repor o estoque de camisinhas. Minha vida sexual sempre foi ativa, e com Micaela as coisas estavam ficando cada vez mais frequentes.
Estacionei logo em frente, entrei e fui direto para a seção de preservativos. Eu conhecia aquele corredor bem demais. Passei os olhos pelas prateleiras, procurando algo que se adequasse ao meu tamanho, quando ouvi o barulho de algo metálico cair ao chão. Um frasco de barbeador rolou até meus pés.
Olhei para baixo, surpreso, e lá estava uma pequena criatura debaixo das prateleiras, mexendo nos cadarços do meu sapato.
— Quem é a mãe irresponsável que perdeu essa criança?— pensei.
Antes que eu pudesse mover um músculo, o bebê olhou para cima e nossos olhos se encontraram.
Algo naquele olhar me deixou inquieto. Havia algo familiar naquele rostinho de bochechas rosadas e cabelos castanhos lisos.
— Ei, o que você está fazendo aí, niño? — perguntei instintivamente, enquanto o pegava no colo.
Ele sorriu, com um sorriso inocente que mexeu comigo de uma forma inesperada.
A chupeta caiu de sua boca e ele começou a puxar meu colarinho, balbuciando palavras sem sentido.
Nesse momento, uma voz feminina, quase histérica, ecoou pelo corredor.
— Meu filho! Cadê você, Rodriguinho?
A mulher entrou no corredor, com os olhos arregalados de pavor. Ela congelou ao me ver com o bebê nos braços, ficando pálida como uma estátua.
Seu rosto... Era inconfundível.
Eu não estava acostumado a me lembrar das mulheres que conheci, mas aquela garota... Ela era a ninfeta com quem tive uma noite intensa em Cancún, durante um forte furacão, e a única que desapareceu antes que eu pudesse pedir seu número.
— Gisele? — perguntei, incrédulo.
— Mamã! — o bebê em meus braços exclamou, estendendo a mão para ela, que parecia finalmente sair do estado de choque.
— Ah... Olá. Pode me entregar meu filho? — ela pediu, com a voz trêmula, aproximando-se rapidamente para pegá-lo.
— Claro, encontrei ele no chão, mexendo nas coisas — expliquei, entregando o bebê a ela.
— Você está bem, meu amor? — Gisele perguntou ao bebê, conferindo-o com cuidado, enquanto eu observava aquela cena.
— Ele está bem. Eu o peguei antes que ele se machucasse — falei, tentando acalmar a situação.
Ela ajeitou o bebê no colo, a cesta de compras com pomadas, chupetas, leite, fraldas e carregando uma bolsa do outro lado, eu coloquei de volta as camisinhas que eu segurava na prateleira.
Eu não conseguia desviar o olhar dela.
Havia algo diferente nela, parecia mais cansada, talvez pelas olheiras profundas. Mas ainda era linda. O cabelo estava mais comprido, a roupa simples, mas prática, blusa de frio, camiseta branca, calça jeans e tênis.
E aquele bebê...
— Nossa, quanto tempo... — comentei, observando tanto ela quanto a criança. — Então você se casou?
Ela balançou a cabeça, com um sorriso tenso nos lábios.
— Ah, não... Sou mãe solo.
A revelação me pegou de surpresa. Eu observava o bebê e a semelhança com algo que eu tentava me lembrar, começou a me incomodar, ele não tinha os olhos claros, cor de mel dela, eram castanhos escuros e profundos.
— Qual o nome do seu filho? Acho que ouvi você chamando ele de Rodriguinho... — perguntei, sentindo algo crescer dentro de mim, algo que eu não queria admitir.


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