GISELE NARRANDO:
Eu o observei por alguns segundos. Rodrigo estava calado, mas o olhar que ele lançava sobre o meu filho me fez estremecer por dentro. Havia desconfiança, quase uma análise clínica. Era como se ele tentasse buscar uma lógica que o convencesse do que eu já sabia há muito tempo: ele era o pai. Eu sentia meu coração bater acelerado, e ao ver os pacotes de camisinhas que ele colocou de volta na prateleira, o desconforto cresceu.
"Claro... ele deve achar que estou tentando dar o golpe da barriga," pensei, com um nó se formando em minha garganta.
Eu me senti pequena diante dele, como se estivesse sendo julgada por algo que jamais fiz, mas não ia abaixar a cabeça. Rodrigo precisava saber a verdade, e eu não estava pedindo nada além de que ele reconhecesse seu próprio filho.
Respirei fundo, tentando reunir o pouco de força que ainda me restava.
— Olha, eu não espero que você acredite nas minhas palavras. — minha voz saiu firme, ainda que meu coração estivesse despedaçado por dentro. — Se quiser fazer um teste de DNA, faça. Você pode tirar suas próprias conclusões. Mas saiba que eu não quero nada de você. Não vim à farmácia essa noite com a intenção de encontrar o pai do meu filho.
Eu não sabia se aquilo o convenceria, mas não podia deixar de dizer. Eu não era como as outras mulheres que ele provavelmente conheceu. Não estava atrás de dinheiro, muito menos de um estilo de vida fácil. Só estava tentando ser justa, tentando dar ao meu filho a chance de conhecer o próprio pai.
Vi o rosto dele mudar.
A expressão de dúvida suavizou, e ele pareceu realmente escutar minhas palavras pela primeira vez.
— Gisele, me desculpe. — ele começou, e pela primeira vez parecia vulnerável. — Já tive mulheres mentirosas dizendo que estavam grávidas. Mas dessa vez... — Ele olhou novamente para o bebê em meus braços, e algo nos olhos dele brilhou. — Dessa vez eu vejo todos os meus traços de quando era pequeno. Sinto no meu coração que ele é meu filho.
Aquelas palavras fizeram meu peito relaxar um pouco, mas eu sabia que ainda estávamos longe de resolver essa situação.
— Eu não tenho por que mentir, Rodrigo. — insisti, olhando diretamente em seus olhos, sem desviar. — Sempre trabalhei e faço tudo pelo meu filho. Só achei que você merecia saber que é pai.
Ele umedeceu os lábios e assentiu lentamente.
— Sim... eu precisava saber disso.
Rodriguinho começou a bocejar e coçar os olhinhos de sono, e eu passei a mão em sua cabeça, tentando acalmá-lo.
Ele estava cansado, assim como eu.
— Eu preciso ir... estamos cansados. — murmurei, com a voz embargada pelo cansaço.
Rodrigo pareceu despertar de seus pensamentos e, para minha surpresa, pegou a cesta de compras do meu braço com naturalidade.
— Eu levo vocês.
Fiquei surpresa com o gesto dele.
Não esperava isso.
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