RODRIGO NARRANDO
Cheguei na cobertura carregando tudo: Rodriguinho no colo, sua bolsa pendurada no meu braço e a sacola cheia de brinquedos na outra mão. A chave quase caiu enquanto eu abria a porta com pressa. Assim que entrei, coloquei o pequeno no chão, as bolsas sobre a mesa, e suspirei aliviado.
Rodriguinho começou a engatinhar imediatamente em direção à escada, e meu coração quase parou.
— Ei, ei, ei, vem cá, campeão — chamei, puxando-o de volta para a sala.
Ele sorriu e, como se fosse um brinquedo a corda, foi direto para a mesinha de centro, que era praticamente do tamanho dele.
— Ah, não, você vai mexer em tudo, né? — brinquei, já me adiantando para tirar os enfeites de cima da mesa e colocá-los no alto, fora do alcance de suas mãozinhas curiosas. — Você não para, hein, rapaz?
De repente, ele começou a chupar os dedinhos e a fazer uma carinha triste, e logo o choro veio.
— Eita, o que foi agora? — Tentei conversar com ele, mas claro, nenhuma resposta.
Apenas mais lágrimas. O que poderia estar acontecendo? Peguei minhas chaves do carro e balancei na frente dele, tentando distraí-lo. Rodriguinho pegou e, como eu imaginava, levou direto à boca.
— Não, não, isso vai machucar, amigão.-- Tirei as chaves rapidamente de sua mão, mas isso só piorou as coisas.
O choro aumentou, agora com lágrimas escorrendo pelo rostinho dele, o que me deixou ainda mais angustiado. Foi então que me lembrei da lista que Gisele havia deixado.
— Deve estar com fome — pensei, correndo para pegar a bolsa dele e procurar pelos potes de comida. Coloquei as frutas na geladeira e um dos potes no micro-ondas. Mas o choro de Rodriguinho não parava.
— Calma, pequeno, já vai sair sua comida, rapidinho, tá? — Falei, tentando parecer mais calmo do que eu realmente estava.
O micro-ondas apitou, mas a comida saiu quente demais.
— Droga! — resmunguei enquanto soprava para esfriar o prato, já sentado no chão da sala com Rodriguinho no meu colo.
— Tá vendo? Só um pouquinho mais e já vai dar pra comer.
Finalmente, consegui alimentar o garoto, e à medida que ele dava as primeiras colheradas, o choro foi diminuindo. Aos poucos, o silêncio voltou, só o som da colher raspando o pratinho e o alívio em ver que ele estava ficando mais calmo.
Depois que ele comeu, claro, já estava pronto para outra aventura.
— Você é incansável, hein? — brinquei, enquanto ele engatinhava de volta para a sala, me dando tempo de levar o prato até a pia.
Lembrei da lista de Gisele, que dizia que eu poderia dar um pouco de água ou uma fruta se ele ainda estivesse com fome. Peguei o papel distraído, e quando olhei para Rodriguinho de novo, lá estava ele puxando um fio solto do abajur.
— Ei! Não, não, não! — gritei, correndo para evitar que ele derrubasse o objeto. Por sorte, consegui pegar o abajur antes que caísse, mas ele apenas riu, achando graça da minha correria.


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