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Uma noite, uma vida romance Capítulo 36

RODRIGO NARRANDO:

Ele conhecia o apartamento melhor do que eu. Foi direto para o banheiro da suíte.

— Mas você vai fazer o quê com ele? — perguntei enquanto pegava a bolsa de Rodriguinho e ia atrás.

— Ele precisa de um banho, Rodrigo! Você o deixou se sujar todo no chão. A mãe desse menino não te conhece pra deixar essa criança com você! Você é um perigo para a sociedade! — Alejandro dizia, colocando o garoto na banheira seca e começando a tirar a roupa dele com uma habilidade assustadora.

— Eu só queria ajudar a mãe dele. Ela o deixa com uma senhora que não é da família para trabalhar de noite até madrugada, pensei que seria fácil... — falei, jogando as roupas sujas de Rodriguinho no lixo.

Alejandro riu.

—Pobre moça, confiar essa criança a passar a noite com você. Esse seu pai é uma piada, Rodriguinho! — ele olhou para o menino e depois para mim. — Você achou que seria fácil cuidar de um bebê? Isso não é brincadeira, marica!

Eu quase vomitei quando ele tirou a fralda transbordando e jogou aquilo no lixo.

— Só não estou acostumado com isso, tá legal? Não fica me zoando! — retruquei, indo lavar minha boca na pia.

— Acostume-se, porque agora que ele começou a comer, só vai piorar — Alejandro falou, ligando a ducha e lavando Rodriguinho com uma facilidade que me deixava com inveja.

— Vai me dizer que você nunca sentiu nojo trocando as fraldas da Valen? — perguntei, me sentindo um pouco mais humano.

— Claro que não! Eu lido com coisas piores no meu trabalho. Além do mais, a Vicky não gostava muito dessa parte, então sobrava pra mim. Agora vem logo, cacete, me ajuda aqui! — ele ria enquanto Rodriguinho gargalhava também, se divertindo.

— Você gostou dele, filho? Esse é o seu tio mais chato. — eu disse, segurando o menino enquanto Alejandro terminava de dar banho.

— Eu sou muito mais legal que esse banana do seu pai. — Alejandro piscou para Rodriguinho, que riu como se concordasse.

Ele começou a ensaboar os cabelos de Rodriguinho com o maior cuidado, e eu estava tentando não parecer completamente perdido. Alejandro, com um sorriso de orelha a orelha, fazia questão de tornar a situação uma espécie de aula. Claro, ele não ia perder a oportunidade de me lembrar que eu estava aprendendo.

— Isso, vai aprendendo com o melhor, meu amigo — disse Alejandro

Não dava para negar, Alejandro estava se divertindo às minhas custas, sem dúvidas. E quem sabe, já se preparando mentalmente para a chegada do Alezinho. O cara parecia um profissional quando se tratava de bebês. Já eu? Bem... eu estava só tentando não afogar o menino.

— Tem que tomar cuidado com o sabão nos olhos, senão é berreiro.

— Berreiro? — perguntei enquanto ele começava a rir.

— Ah, fica tranquilo. No máximo, você vai levar um chute aqui e ali, nada demais — ele piscou.

O Rodriguinho me olhava com os olhos arregalados, claramente achando tudo aquilo uma grande brincadeira.

Não vou mentir, a gente se molhou bastante. Quando terminamos, enrolei o menino em uma das minhas toalhas felpudas, como se fosse um burrito humano. Eu estava orgulhoso. Até que Alejandro veio com o próximo desafio.

— Agora vamos trocar a fralda, Rodrigão. Tem que ser rápido. Se demorar muito, corre o risco de… você sabe, uma surpresa desagradável.

— Surpresa? Tipo xixi? — pensei, um pouco mais tenso do que gostaria de admitir.

Enquanto eu tentava descobrir qual lado da fralda era a frente, Alejandro passou pomada no bumbum de Rodriguinho, que estava um pouco vermelho.

— Você não pode deixar a fralda suja muito tempo, senão acontece isso, e pode machucar o Rodriguinho — explicou ele.

Eu apenas assenti, mais focado em não errar a parte mais importante. A fralda ficou meio torta, mas estava lá.

Consegui!

Alejandro olhou, deu um sorriso condescendente e começou a vestir o menino com o pijama que separei de sua bolsa, uma calça e uma camisa de manga longa, penteando o cabelo do moleque, que bateu palminhas, rindo.

Era um mini puxa-saco do tio, isso sim.

— Viu? Simples. — Alejandro riu, e eu só balancei a cabeça.

— E eu também. Você precisa parar de ser esse playboy mimado, Rodrigo. Seu filho é um menino bonzinho. Se ele chorar, é comida, fralda suja ou algum incômodo. É só ficar de olho. Aproveita, cara, porque passa rápido.

Alejandro pegou suas coisas. Eu, desesperado por ajuda, fui atrás.

— Ale, você já vai? Não quer ficar aqui essa noite, me ajudar com o seu sobrinho? Se ele acordar e sujar a fralda de novo?

— Daí você limpa seu filho. Tenho uma esposa chegando nas últimas semanas da gravidez e uma filha que só dorme comigo por perto. Já te ensinei o básico. Agora é com você.

— Po... vocês têm três babás, manda uma pra mim.

— Na próxima, combina com a Vittoria. Aproveita sua primeira noite de pai e filho, Rodrigão.

Ele piscou e entrou no elevador, indo embora. Suspirei, frustrado.

— Filho da mãe... — resmunguei, voltando para minha cobertura.

O cheiro ainda parecia estar lá, e o tapete estava manchado. Sem hesitar, arranquei o tapete do chão e pedi ao porteiro para buscá-lo junto com os sacos de lixo. Não podia sair e deixar Rodriguinho sozinho, então dei ao porteiro cem dólares por fora e esperei ele vir buscar.

Com o silêncio no apartamento e Rodriguinho dormindo, tomei um banho rápido, exausto. A água quente parecia aliviar um pouco a tensão, mas o cansaço não ia embora. Vesti uma samba-canção, coloquei um fettucine com peru congelado no microondas, preparei no prato para comer, depois sentei-me à mesa, checando os meus e-mails.

Foi aí que ouvi o choro.

— Já acordou? — murmurrei, largando o prato no balcão.

Corri para o quarto, e lá estava Rodriguinho, sentado no meio da roda de travesseiros, soluçando, como se estivesse estranhando meu quarto. Peguei-o no colo, abraçando-o e acariciando sua cabecinha.

— Está tudo bem, filho. Papai está aqui.

E por um segundo, mesmo com toda a confusão e cansaço, percebi o quanto eu queria ser esse “papai” para ele.

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