GISELE NARRANDO:
Quando saí do edifício luxuoso onde Rodrigo morava, senti como se estivesse em um sonho ruim, daqueles que a gente quer acordar, mas não consegue. Entrei no primeiro táxi que vi, e minha mente estava em turbilhão. O peso do que acabara de acontecer, a descoberta de que Rodrigo fez o exame de DNA pelas minhas costas, enquanto aquela loira platinada estava lá no apartamento dele, me acertou em cheio, como um soco no estômago. Minha visão ficou turva, e por um instante, eu apertei Rodriguinho tão forte que seu choro agudo me trouxe de volta.
— Me desculpa, hijo... — murmurei, ajeitando-o no meu colo com mais cuidado e beijando sua testa.
Ele se aconchegou em mim, e aquele simples gesto me desarmou. Meu menino não tinha culpa de nada.
Eu não tinha mais cabeça para ir trabalhar. Não depois disso. Olhei pela janela do táxi, tentando encontrar algum tipo de paz no movimento das ruas, mas o que me invadia era raiva. Como Rodrigo pôde fazer isso comigo? Como ele pôde agir nas minhas costas, levando nosso filho para um laboratório sem sequer me avisar? A confiança que eu tinha nele, por mais mínima que fosse, evaporou completamente. E para piorar, Micaela estava lá, naquela casa. Não era apenas uma amante — eles estavam juntos. Namorando. Como pude ser tão tola de acreditar que ele poderia ser diferente dessa vez comigo?
Eu fui burra... de novo.
Chegando na villa, pedi ao taxista que parasse. Paguei em dinheiro, sem me preocupar com o troco. Tudo o que eu queria era entrar em casa, me trancar e me afastar de tudo. Caminhei pelo pátio com Rodriguinho no colo, e logo vi Dona Sueli tirando as roupas do varal, batendo papo com as vizinhas.
— Gisa, você não ia deixar Rodriguinho com o pai hoje? — perguntou Dona Sueli, franzindo o cenho ao me ver chegando com ele nos braços.
Sua voz chamou a atenção das outras vizinhas, e de repente, todas estavam olhando para mim, curiosas. Senti o desconforto crescer no peito. Eu não estava pronta para perguntas, nem para fofocas. Forjei um sorriso amarelo, tentando esconder a avalanche de sentimentos que me afligia.
— Ah, não, Dona Sueli... não estou me sentindo muito bem. Então decidi voltar para casa e trouxe o Rodriguinho comigo — respondi, tentando parecer tranquila.
— Obrigada, Dona Sueli. Eu sei... vou cuidar, sim.
Subi as escadas com Rodriguinho nos braços, tentando conter as lágrimas que insistiam em surgir. Quando cheguei ao nosso pequeno apartamento, sentei-me no sofá com ele no colo, observando-o brincar inocentemente com um dos brinquedos. A mente não parava, girando sem controle.
Eu estava destruída. Rodrigo não só havia quebrado minha confiança, mas também me fez sentir como se tudo fosse um jogo para ele. Eu tinha sido mãe e pai de Rodriguinho por sete meses. Eu lutei sozinha, e agora que ele sabia da existência do filho, ele queria tomar decisões sem sequer me consultar. Como ele podia ser tão... egoísta?
Rodriguinho me olhou, rindo com seu brinquedo na mão. Olhei para ele e, naquele momento, soube que não importava o que acontecesse. Eu lutaria com unhas e dentes por ele, para protegê-lo de tudo — até do próprio pai, se fosse necessário.
Porque agora, mais do que nunca, eu sabia que não podia confiar em Rodrigo.

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