GISELE NARRANDO:
Faz semanas que tento encontrar algum vestígio de Rodrigo, mas parece que ele é um fantasma. Procurei ajuda de um colega que trabalha na recepção do resort, mas não havia nenhum hóspede registrado com esse nome naquela noite.
Nenhum Rodrigo, nenhum Rafael, nenhum Rodolfo, nenhuma pista que me levasse a ele, apenas um lenço com as iniciais "R.C" que ele deixou comigo.
Como ele foi capaz de mentir sobre o próprio nome? O canalha me enganou e agora me sinto tão burra. Não sei de onde ou que cidade ele veio, qual seu sobrenome, nem mesmo seu número de telefone, parecia ser mexicano pelo sotaque e eu pensava de qual parte. Pela primeira vez, sinto-me verdadeiramente irresponsável.
O que vou dizer ao meu filho quando ele me perguntar sobre o pai? Que me entreguei a um homem que mal conhecia... Um filho de um estranho. Como eu explicaria isso para o meu filho um dia?
Minha primeira vez foi com um mentiroso. Eu me culpei tanto no começo, mas quem nunca errou nessa vida, não é? Ninguém poderia me julgar. Um bebê é uma benção, e pelo menos eu não estaria mais sozinha nesse mundo.
Seis meses se passaram desde que descobri que estava grávida. Continuei trabalhando no resort, pois preciso mais do que nunca de dinheiro.
Comecei meu pré-natal logo após a descoberta, mas como as coisas pequenas em vilas sempre se espalham rápido, logo todos os vizinhos souberam da minha gravidez. Os olhares de julgamento me acompanharam por onde eu ia. As fofocas eram implacáveis.
Quem seria o pai? Eu nunca confirmei nada.
Apenas comecei a usar roupas mais largas para evitar os olhares curiosos.
Meu chefe, no entanto, não ignorou os rumores por muito tempo. Um dia, fui chamada à sala dele.
Ele parecia desconfortável, como se quisesse dizer algo delicado. Após alguns rodeios, ele finalmente disse:
— Gisele, não sei se você está ciente, mas sua gravidez pode causar complicações para a imagem do resort. Já que você trabalha no bar preparando bebidas alcoólicas até de madrugada. Sabe como são os hóspedes... Eu lamento muito, mas acho melhor encerrar nosso contrato.
Fiquei em choque, mas não contestei. Eu sabia que discutir ali não mudaria nada. Ao menos, recebi uma boa quantia na rescisão, o que me daria algum tempo para respirar e planejar o futuro.
Agora, sem emprego e com a barriga crescendo, percebi que a villa não tinha mais nada para me oferecer. Decidi que venderia minha casa e a da minha madrinha. Isso me permitiria recomeçar em algum lugar novo, talvez na capital, onde eu pudesse ter mais oportunidades de trabalho e um hospital melhor para o nascimento do meu filho.
Contratei um advogado conhecido na vila para lidar com a documentação da venda das casas.
Fiz fotos dos imóveis e postei alguns anúncios na internet. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento. Comecei a arrumar minhas malas, separando o que levaria e o que deixaria para trás.
O aluguel na capital não era barato, e ainda preciso pensar no enxoval do bebê, que senti ser um menino.
Comecei a chamá-lo de Rodriguinho, em homenagem ao único nome que conhecia de seu pai mentiroso. Todos os dias eu conversava com ele, acariciando minha barriga, desabafando sobre minhas preocupações, minhas inseguranças, e até minhas esperanças. Ao mesmo tempo que me arrependia do erro, me confortava pensando que um bebê é uma vitória.
A Virgenzinha de Guadalupe deve ter-me enviado esse presente para que eu nunca esquecesse de ser mais cuidadosa no futuro.


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