GISELE NARRANDO:
No segundo dia na mansão Corleone, o sentimento de acolhimento que eles me ofereciam era reconfortante, mas, ao mesmo tempo, eu estava tensa. Tinha sido tudo tão rápido, tantas mudanças, e eu ainda estava tentando processar tudo. Na noite anterior, Duda havia me levado para o trabalho. Ela ficou no bar, tomando alguns drinks e água, até o meu turno acabar. Depois, me levou de volta para a mansão. Preciso descobrir qual linha de ônibus passa perto do condomínio, porque, pela distância, ficar dependendo de táxi seria um absurdo de tão caro.
Dormir em um quarto novo era estranho. As minhas coisas e de Rodriguinho foram organizadas no closet mais rápido do que imaginei. Eu mal comecei a arrumar e, quando retornei pela manhã, Rita e outra empregada já tinham feito todo o serviço. Sobrava espaço, afinal, não tínhamos tantas coisas assim. Quando chegamos logo cedo, Rodriguinho ainda estava no quarto dos avós, dormindo, então aproveitei para tomar um banho relaxante e, pela primeira vez em dias, consegui descansar de verdade.
Acordei horas depois, com a sensação de que havia hibernado por séculos. Quando olhei o celular, quase entrei em pânico: eram três da tarde! Saltei da cama, completamente desorientada, sem nem lembrar onde estava por um segundo. Depois que minha mente se situou, me lembrei de que aquele era o meu novo quarto temporário. Fui para o banheiro e quase dei um pulo ao ver meu reflexo no espelho: meu cabelo estava uma bagunça e meu rosto completamente amassado. Tomei outro banho e lavei os cabelos, aproveitando a iluminação maravilhosa do espelho de LED do banheiro para fazer uma maquiagem básica. Cada detalhe daquela casa era uma nova surpresa, e comecei a entender que Rodrigo era muito mais rico do que eu imaginava. Mas, claro, isso não mudava o fato de que o caráter dele era uma merda.
Era domingo, e eu sabia que o bar estaria lotado. Decidi me arrumar um pouco mais. Coloquei uma calça preta justa que imitava couro, um cropped preto e uma bota sem salto, também preta. Fiz uma maquiagem leve e, depois de arrumar a cama e abrir as cortinas, dei uma ajeitada básica no quarto antes de sair. Precisava encontrar o Rodriguinho.
Enquanto andava pelos corredores, senti um nó no estômago. Era tão diferente de tudo que eu estava acostumada… Eu estava ali, cercada de luxo, e, ao mesmo tempo, tão longe da minha realidade. Rodriguinho tinha se adaptado tão bem que isso me aliviava um pouco. Mais uma vez, lembrei por que estava ali. Não era só por mim. Eu faria tudo por ele.
Eu estava descendo as escadas com uma leve dor de cabeça, provavelmente pela correria dos últimos dias. O som das risadas ecoando pela casa me pegou de surpresa. Quando virei o corredor e cheguei na sala de estar, a cena diante de mim fez meu coração apertar.
Rodriguinho estava sentado no tapete, rindo com o pai, Rodrigo, que o ajudava a abrir algumas caixas de presentes. No sofá, Madah parecia completamente à vontade, sorrindo enquanto segurava um dos pacotes. Ao lado dela, estava Micaela, com seu cabelo loiro platinado impecável, e Raphael na poltrona, de pernas cruzadas, assistindo tudo com um sorriso no rosto.
Senti um incômodo enorme quando meus olhos cruzaram com os de Micaela. Sem pensar duas vezes, fui direto até onde Rodriguinho estava e o peguei no colo, como se quisesse protegê-lo daquela loira que parecia ter invadido meu espaço, minha vida, e agora estava ali, ao lado do meu filho.
— Buenas tardes, Gisele — Micaela disse, num tom gentil, que me fez querer responder com algo bem menos educado.
— Gisa querida, olha quantos presentes Micaela e Rodrigo compraram. Eu amei esses conjuntinhos de roupas da Ralph Lauren! — Madah disse, mostrando uma das sacolas de grife. Mas eu mal consegui focar nas roupas.
— É muito bonito… Me desculpem, eu dormi demais — falei, tentando controlar minha irritação, enquanto olhava para Madah.
— Imagina, querida. Duda me disse que você chegou tão cansada essa manhã que quis te deixar descansar. Rodriguinho está muito bem, já tomou banho, almoçou e troquei as fraldas dele — Madah disse com um sorriso acolhedor.
— Obrigada, Madah — sorri de volta, embora estivesse longe de me sentir tranquila.
— Gisele, deixa ele terminar de abrir os presentes dele — a voz de Rodrigo me pegou de surpresa, e percebi que Rodriguinho fazia força para descer do meu colo, impaciente.
Ele queria ir para perto do pai. Respirei fundo e o coloquei no chão, tentando ignorar o leve incômodo que senti ao vê-lo engatinhar de volta para Rodrigo e os presentes, tão facilmente.

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