Nayla
Não consegui dormir a noite toda pensando no que aconteceu ontem. Amir não deveria ter me enganado desse jeito. Se não queria seguir meus passos, o mínimo que poderia ter feito era ter sido honesto. Olhei para o relógio — sete da manhã. Decidi que não dava mais para fugir. Tomei um banho rápido, vesti uma roupa leve e fui até a escola. Precisava saber se ao menos ele estava frequentando as aulas.
A diretora me recebeu com um olhar cansado. Quando perguntei sobre a frequência do Amir, ela foi direta: ele tinha mais de setenta por cento de faltas. E o pior — Amir queria mesmo se formar, ou ao menos fingia que queria. Enquanto eu abria mão dos meus sonhos por ele, ele traía minha confiança.
Mas o mais doloroso nem era isso. Era lembrar de todo dinheiro que dava para ele almoçar, dos trabalhos extras para garantir que não faltasse nada, da mesada para ele não ter que trabalhar enquanto estudava. Sempre quis que Amir tivesse oportunidades melhores do que as minhas, que ele pudesse escolher o próprio destino. Só que ele já era adulto, e talvez fosse eu que ainda enxergasse ele como menino.
Voltei para casa revoltada. Ao me aproximar, notei um dos homens de Adir parado na porta — Faris. Um frio percorreu meu corpo. Tive medo de que algo tivesse acontecido com Amir. Andei devagar até ele, tentando controlar o nervosismo.
Faris: Bom dia, Nayla. O senhor Adir pediu que eu te entregasse isso. — Ele me passou um envelope. — É o acordo da dívida, já com desconto. Pode ficar tranquila. Ninguém vai fazer nada com você.
Apenas assenti, agradecida.
Faris foi embora, e entrei em casa com o coração acelerado. Abri o envelope: a dívida tinha sido reduzida à metade e parcelada em valores que eu conseguiria pagar com muito sacrifício. Não seria fácil, mas era possível. Só que eu não ia deixar isso passar em branco. Se aprendi algo com minha mãe, é que quem engana merece aprender — e, se Amir não aprendesse agora, nunca aprenderia.
Fui até o banheiro, enchi uma bacia de água fria, subi as escadas devagar e, sem hesitar, abri a porta do quarto dele e joguei toda a água em cima.
Amir: O que é isso, Nayla?! Ficou louca?
Nayla: Louco é você! Levanta, porque hoje você vai trabalhar comigo.
Amir: Eu? Trabalhar?
Nayla: Isso mesmo. Você tem uma dívida a pagar. Se pensa que vou me destruir para cobrir suas irresponsabilidades, está muito enganado. Eu já me sacrifiquei, já fiz tudo o que podia. Agora é você quem vai levantar cedo, pegar no pesado e sentir o que é carregar uma casa nas costas. Era isso que você queria? Parabéns. Tirou a dignidade que me restava. Mas não pense que vai ficar deitado enquanto eu faço tudo. Você vai trabalhar. Ou então vai embora dessa casa — porque aqui não tem lugar para quem só me faz sofrer.
Sem saída, ele me acompanhou. Caminhamos juntos pelas ruas quentes, carregando as bolsas. Não troquei mais do que o necessário.
Chegamos ao mercado central. O cheiro de especiarias, frutas maduras e pão fresco tomava o ar. Os vendedores gritavam preços, clientes pechinchavam, crianças corriam entre as barracas. Coloquei Amir para me ajudar a vender água, sucos e doces. Ele ficou tímido, sem jeito, reclamando das pessoas olhando, do calor, do peso das caixas. Ignorei.
Nayla: Você vai aprender que vergonha mesmo é enganar quem te ama.
Durante toda a manhã, o fiz trabalhar ao meu lado. Ele resmungou, reclamou, tentou se esconder atrás das barracas. Mas, pela primeira vez, entendeu como era difícil colocar comida em casa, pagar contas, sustentar sonhos.
No fim do dia, voltamos cansados. Amir estava exausto, com as mãos doloridas e o olhar baixo. Não reclamei. Apenas olhei para ele e, com um fio de esperança, torci para que aprendesse.
E, se não aprendesse… pelo menos, eu teria tentado tudo.

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