POV: LORENZO
O pátio de contêineres ainda cheirava a sangue quando os sobreviventes receberam a ordem de marchar para o grande pavilhão náutico do porto. Nós não tínhamos o resto do dia. O cronômetro que eu e o Ethan tínhamos programado era impiedoso: eles tinham exatamente uma hora para estancar os rasgos na carne antes que o segundo moedor começasse.
Caminhei pelos bastidores do pavilhão escuro com o peito queimando em um turbilhão sufocante de fúria, ansiedade e puro pânico. Minhas pernas se moviam sozinhas, ditadas pelo ritmo violento do meu coração. Quando cheguei perto da área médica improvisada dos Ferraro, a imagem do meu irmão mais velho me fez perder o resto do controle que eu ainda tentava segurar.
O Dominic estava sentado em um banco de ferro, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto completamente destruído. O sangue escorria do supercílio cortado, misturando-se com o suor e a terra da arena. Ele parecia estar no limite absoluto do colapso físico. Ao lado dele, os dois soldados menos feridos estavam sendo medicados, enquanto os outros dois agonizavam em estado crítico.
Entrei no recinto como um furacão, com os olhos injetados de ódio e frustração. Empurrei os subordinados para o lado, parei na frente do meu irmão mais velho e, sem dar nenhum aviso, desferi um soco violento contra o rosto já machucado do Dominic.
O impacto estalou no galpão vazio. O Dominic apenas virou a cabeça com o golpe, cuspindo uma lufada de sangue no chão de cimento, mas não revidou.
— Ficou maluco, porra?! — gritei, a minha voz ecoando pelas paredes de ferro, o meu corpo inteiro trêmulo de raiva e de aflição. — Como você deixou aquilo acontecer lá embaixo? Você perdeu o foco, Dominic! Você é o melhor de nós, caralho! Se jogou no meio de oito homens e quase se deixou matar! O que aconteceu com a sua cabeça?
O Dominic limpou o canto da boca com as costas da mão, respirando de forma pausada, sentindo a dor excruciante dos murros que levara na barriga durante o cerco. Ele ergueu os olhos bicolores para mim, a voz saindo rouca e cortante:
— O desgraçado da Cosa Nostra... — ele sibilou, o maxilar travando de um jeito assustador. — No meio do confronto, ele se inclinou e gritou no meu ouvido. Disse que já sabia que a Alessia estava na porra da lista de recompensas global. Ele disse que ia me matar nesta arena, que ia caçá-la e comê-la como uma puta.
O silêncio engoliu o ambiente por um segundo. O Dominic trincou os dentes, e a fúria que emanou do corpo dele fez até os médicos recuarem um passo. Senti o meu próprio peito congelar, o sangue sumindo do meu rosto ao absorver o peso do que ele tinha ouvido.
— No momento em que ele falou a porra do nome da Alessia, Lorenzo... Eu perdi o controle. Eu vi vermelho, ódio, morte. Eu parei de calcular os golpes e só queria arrancar a cabeça daquele verme com os meus dentes.
— Se deixou levar e quase morreu e perdeu tudo! — levei as mãos à cabeça, indignado, gritando para sufocar o pavor que eu sentia de perdê-lo. — Seu idiota, se você morrer nesta arena, não vai conseguir proteger ninguém, muito menos ela!
— Nem pensei — Dominic sussurrou, baixando os olhos.
Pisquei, sentindo a raiva ceder espaço para uma compreensão dolorosa e uma preocupação absurda que apertava a minha garganta. O ódio no meu rosto derreteu por completo. Peguei uma gaze limpa da bandeja, empurrei a mão do enfermeiro e eu mesmo comecei a estancar o sangue que vertia do supercílio do Dominic, aplicando uma pressão firme enquanto ele engolia um remédio forte para suportar a dor.
— Você precisa vencer essa segunda etapa, Dominic — falei, mudando o tom para algo quase sussurrado, colando a minha testa perto da dele. — Se você passar pelos tanques agora, nós ganhamos o resto do dia e a noite inteira para você se recuperar. Você precisa aguentar mais uma rodada. Só mais uma.

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