POV: DOMINIC FERRARO
— Isso vai ser um suicídio, Dominic. — A voz de Lorenzo era o único som dentro do galpão, além do clique-claque metálico e rítmico das armas sendo carregadas. — Entre no território Lombardi, pague o dote, faça uma proposta formal. É assim que a máfia funciona agora. Diplomacia, irmão.
Parei de limpar o cano da minha submetralhadora e olhei para ele. Meus olhos — um azul-gelo e o outro um castanho âmbar — fixaram-se nele com o desprezo que eu reservava para qualquer coisa que cheirasse a civilidade.
— Eu não sou um diplomata, Enzo. Eu sou o que sobrou de um massacre. — Minha voz saiu rouca, arranhada pelos anos em que o frio do asfalto e a fumaça de lixo queimado foram meus únicos companheiros. — Além do mais, eu pedi a mão daquela boneca de prata duas vezes. Aquele verme me negou como se eu fosse um vira-lata sarnento. Agora, eu vou tomar o que ele acha que vale ouro.
— Mas eu também não daria minha filha a um psicopata — Jales comentou ao meu lado, verificando as munições com um nervosismo mal disfarçado.
— Leopoldo Lombardi não merece meu dinheiro. Ele merece ver a ruína do que ele criou. E é exatamente isso que ele vai ter — afirmei, encaixando o pente da metralhadora com um estalo seco e final.
Passei a mão pelas cicatrizes que subiam pelos meus braços como serpentes de tecido cicatricial. Marcas de brigas de faca em becos onde a vida valia um prato de comida; queimaduras de quando tínhamos que dormir abraçados a latas de lixo em chamas para não congelar. Onze anos. Levou mais de uma década para eu desenterrar o nome Ferraro das cinzas e afiá-lo como uma navalha.
— Cassian, guarde a porra desse celular — rosnei para o caçula.
Ele estava deitado no chão de concreto, a cabeça descansando perigosamente perto de um tijolo de cocaína pura. Cassian tinha treze anos. Ele mal se lembrava do cheiro de pólvora e do som de ossos quebrando na noite em que nosso pai, o Capo, foi trucidado. Ele era um bebê quando fomos jogados no esgoto. Era o único de nós que ainda guardava um rastro de luz nos olhos, e eu pretendia usar essa pureza como escudo enquanto pudesse.
— Só estou estudando o mapa da catedral, Dom — ele resmungou, guardando o aparelho com um bico infantil.
Eu já tinha cada segundo calculado. Eu não ia apenas sequestrá-la. Eu ia dissecar a existência dela. Leopoldo amava aquela boneca de cabelos lunares? Ótimo. Eu ia usar cada fio prateado para enforcá-lo psicologicamente. Eu ia marcar a pele dela até que ela não passasse de um mapa da minha vingança.
— Vamos fazê-la pagar por cada noite que passamos disputando restos com os ratos — eu disse, vestindo a máscara de Michael Myers.
O látex era quente, sufocante, mas eu gostava daquela privação sensorial. Era a minha verdadeira face. A face que não sente, não pisca e não perdoa. Sob o plástico pálido, eu deixava de ser homem para me tornar um conceito de morte.
— Certo, contanto que possamos nos divertir com ela — um dos soldados riu, um brilho obsceno nos olhos. — Será que ela é toda grisalha lá embaixo? Seria uma experiência exótica.
— Cale a boca, imbecil — Lorenzo cortou, dando um tapa na nuca dele. — Tem uma criança aqui, não está vendo?


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