POV: LORENZO
Depois que os portões eletrônicos dos tanques se abriram e os paramédicos levaram os sobreviventes, o pavilhão náutico continuou mergulhado em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo eco da enxurrada escoando pelos ralos. A adrenalina do Conclave ainda vibrava de forma dolorosa sob a minha pele. Minha cabeça era um turbilhão caótico de fúria, ansiedade e um medo sufocante que eu não podia demonstrar para os outros clãs. Ver o Dominic ser carregado para aquela ambulância, desacordado e com as mãos em carne viva, tinha deixado os meus nervos em frangalhos.
Subi para a sala de reuniões privada do porto, tentando controlar a agitação no meu peito. Eu não conseguia parar quieto, andando de um lado para o outro do tapete com os punhos cerrados. Pouco depois, o Ethan e o Killian se reuniram ali para avaliar os relatórios médicos dos sobreviventes. Fiquei no canto da sala, de braços cruzados, apenas assistindo enquanto o meu amigo jogava o maço de relatórios sobre a mesa de madeira diante do Capo Supremo.
— O Conclave moeu os caras hoje, Killian — o Ethan comentou, apontando para os gráficos de baixas que piscavam na tela do painel. — O pátio de contêineres e o gás lacrimogêneo dos tanques deixaram os sobreviventes completamente destruídos. O Dominic está sendo costurado agora no hospital de campanha, mas os homens dele estão em frangalhos. A Cosa Nostra ganhou uma bela avaria e perdeu metade da capacidade pulmonar aspirando aquele composto químico. Se jogarmos esses caras na arena da Etapa três nas próximas horas, metade vai colapsar antes mesmo de encontrar o inimigo. Não vai ser um teste de letalidade ou tática, vai ser um massacre de doentes.
O Killian bateu os dedos contra a mesa, avaliando o cenário com a sua típica frieza cirúrgica, e respondeu que nós não iríamos estragar o espetáculo por pura pressa, perguntando qual era a sugestão do meu amigo.
— Vamos adiar o início da Etapa três — o Ethan sugeriu, mantendo a sua postura neutra de fiscal. — Em vez de abrirmos os portões logo pela manhã, vamos dar a eles o restante do dia de hoje e a noite inteira para se recuperarem nos leitos médicos. Mudamos o cronograma, começamos amanhã bem cedo e, na parte da tarde ou da noite, liberamos a grande final na Inferno.
— Fechado, pode ser assim. O Dominic tem tempo de se recuperar — o Killian assentiu, tomando a decisão final. — Avise os líderes. Amanhã.
Ao ouvir a notificação daquele novo plano decretado pelos dois, senti um peso monumental sair das minhas costas. O meu maxilar finalmente relaxou. Meu irmão teria vinte e quatro horas preciosas para respirar e se remendar.
Com a decisão tomada por eles, passei o restante daquele dia inteiro trancado nos bastidores do porto junto com o Ethan, organizando a logística e garantindo que nenhuma facção tentasse burlar a trégua médica. Como o adiamento beneficiava todas as organizações feridas, os líderes do continente aceitaram o novo prazo sem nenhuma rebelião.
Mesmo assim, as horas daquela noite passaram como um borrão torturante na minha mente. Eu mal consegui pregar os olhos no meu quarto de hotel. Toda vez que eu fechava as pálpebras, a frase que o Dominic tinha me dito no galpão médico — sobre o desgraçado da Cosa Nostra ameaçando caçar a Alessia e transformá-la em uma puta de recompensa global — ficava ecoando em um looping violento no meu juízo. O ódio me consumia por dentro. Eu precisava que o Dominic fizesse o serviço em campo.
Às seis horas da manhã do dia dois de novembro, o prazo terminou. O tempo de misericórdia havia esgotado.
Mudamos a logística do local da prova por questões de segurança. Em vez de usarmos um campo aberto exposto, resolvemos transferir o confronto para um confinamento estratégico e totalmente conhecido. Esvaziamos o colossal galpão industrial de armazenamento náutico do porto. Era um espaço monstruoso, com o tamanho equivalente a dois campos de futebol integrados, onde antigamente se guardavam e reformavam navios de grande porte da região.
O ambiente era um verdadeiro pesadelo de ferro: carcaças de embarcações antigas abandonadas pelo chão, vigas metálicas expostas que subiam até o teto alto, poços de manutenção profundos e vazios no concreto e plataformas suspensas de observação. Eu e o Ethan espalharmos centenas de caixas de madeira vazias e obstáculos industriais por todo o perímetro para criar pontos de emboscada. Confiscamos qualquer armamento pesado de fogo ali dentro por um motivo técnico muito claro: a finalidade dessa etapa era testar a força bruta, a resistência física e a técnica de combate com lâminas, e não a sorte de quem tem um gatilho na mão e atira primeiro. Seria no mano a mano, na brigação pura e crua no escuro.
Os geradores industriais de fumaça já estavam posicionados nos quatro cantos, prontos para disparar a névoa preta espessa que cobriria todo o perímetro e tiraria a visão dos combatentes.

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