POV/ SIENA
O dia seguinte passou como um arrastado borrão de isolamento. Enquanto eu me trancava no quarto tentando focar as minhas vistas nas páginas de um livro qualquer, o Lorenzo passou horas na rua resolvendo a engrenagem da máfia. Ele teve um dia extremamente grande, dividindo o comando, fechando acordos de paz com as famílias que tinham perdido a guerra e reorganizando o território para deixar a Sicília segura antes da sua partida.
Estava exausta de tanto pensar na teia de mentiras em que eu estava enfiada, acabei pegando no sono cedo, deixando o corpo afundar no colchão.
No meio da madrugada, um barulho esquisito me arrancou do sono.
Abri os olhos no susto, sentindo o meu coração acelerar de imediato dentro do peito. No primeiro instante, achei que pudesse ser um ataque, mas não era barulho de tiro ou de invasão. Era o som abafado de uma música animada misturado com gargalhadas masculinas ecoando pelo corredor de mármore. Uma queimação esquisita subiu pelo meu estômago. Levantei da cama lentamente, pisando descalça no chão gelado, e caminhei na penumbra até a origem do som. A movimentação vinha direto do escritório do Lorenzo.
Aproximei a minha mão da maçaneta de madeira pesada e empurrei a porta apenas um milímetro, olhando pela fresta estreita.
O ambiente estava imerso em fumaça de charuto e cheiro forte de bebida. Havia cerca de seis homens que deviam ser da Irmandade de Ferro sentados ao redor, bebendo e rindo alto com copos de uísque nas mãos. Mas a minha visão travou no centro do cômodo. O Lorenzo estava sentado na sua poltrona de couro preta com as pernas abertas, o colarinho da camisa desabotoado e uma mulher loira de vestido curto sentada direto no colo dele, rindo perto do seu pescoço.
Meu estômago revirou de um jeito tão violento que fiquei zonza, o ar sumindo dos meus pulmões instantaneamente. No sobressalto, dei um passo para trás e acabei batendo o calcanhar contra o batente da porta, fazendo a madeira estalar com um clique ríspido.
Não esperei para ver se alguém tinha escutado. Dei as costas e saí correndo pelo corredor escuro, com as lágrimas quentes transbordando dos meus olhos e molhando as minhas bochechas.
Subi os degraus da escada com os pulmões implorando por oxigênio, uma fúria cega misturada com uma dor dilacerante estraçalhando o meu orgulho. Eu tentava mentir para mim mesma enquanto corria, repetindo na minha mente que ele ia ser o meu marido de qualquer forma por causa do casamento arranjado, que eu não devia me importar, que ele estava cheio de problemas e tinha o direito de se divertir. Mas o desconforto de ver outra mulher tocando nele me incomodou muito mais do que deveria.
Eu só queria gritar a verdade, contar quem eu era, mas a covardia me prendia.
Cruzei o batente do quarto disposta a me trancar lá dentro, mas antes que eu conseguisse puxar a porta, uma mão enorme e absurdamente quente se cravou no meu braço.
— ME SOLTA! — gritei em um sussurro ríspido, tentando puxar o meu pulso com força, me recusando terminantemente a olhar para a cara dele.
— Não vou soltar — a voz do Lorenzo ecoou atrás de mim, extremamente grossa, o hálito dele vindo quente e carregado de uísque contra a minha nuca. — O que foi que aconteceu, Siena? O que você estava fazendo lá embaixo?
— Não aconteceu nada, me solta! — rebati, o meu peito subindo e descendo em arquejos curtos de puro estresse físico.
— Aconteceu alguma coisa sim. Me conta. Se você não me contar, eu nunca vou saber — ele ditou com autoridade máxima, usando o peso do próprio corpo robusto para me encurralar contra o seu peito.
Lorenzo me girou com um tranco firme, me forçando a ficar de frente para ele. Quando os olhos castanhos dele focaram no meu rosto borrado pelo choro, o semblante dele mudou, a rigidez dele desmoronando por um segundo. A mão dele subiu para o meu ombro, apertando a minha pele com possessividade.
— Você está chorando? O que foi? Você se machucou em algum lugar? — o tom dele vacilou em uma preocupação genuína que me irritou ainda mais.
— Sim, eu me machuquei! — disparei, a voz falhando pelo choro entalado na garganta.

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