POV/ LORENZO
— Não.
— Então? — ele questionou, arqueando uma sobrancelha na minha direção.
— Porque eu acho que estou gostando de outra pessoa — confessei em um tom rústico, sentindo o meu orgulho arder com aquela admissão de fraqueza. — Eu nunca senti essa merda na minha vida inteira por mulher nenhuma. Nunca me importei se uma vadia estava com dor, se tinha comido ou se precisava de cuidado. Se o meu pau a machucava ou qualquer outra coisa.
Tomei um longo gole da bebida direto da garrafa. O líquido desceu queimando tudo, me fazendo soltar uma leve tossida por causa do álcool forte, mas continuei encarando o Ethan de frente.
— Mas com essa garota eu fico completamente descontrolado. Meu peito chega a doer só de pensar na hipótese de deixá-la ir embora. Eu nunca gostei de alguém antes, então eu deduzi que isso que estou sentindo é gostar de verdade.
O Ethan mudou a postura. Ele descruzou os braços largos, deu um passo à frente e esticou a mão na minha direção. Arrancou a garrafa de cachaça dos meus dedos, levou o gargalo direto à boca e deu um gole profundo e demorado. Ele engoliu o líquido ardente sem nem piscar os olhos, limpou os lábios com as costas da mão calejada e me encarou com uma mistura de ironia e seriedade cortante.
— Deixa eu adivinhar... — Ethan soltou, a voz saindo fria. — Essa pessoa de quem você está falando tem o rosto cheio de sardas, o cabelo pintado de preto e uns olhos verdes bem marcantes?
Meus músculos congelaram na cadeira no mesmo milésimo de segundo. Minha espinha ficou totalmente rígida e o meu coração deu uma pancada violenta contra as costelas, fazendo o sangue pulsar com força nas minhas têmporas. O efeito da cachaça pesada parecia ter dado um nó no meu cérebro, me deixando lento para processar aquela informação.
— Exatamente isso — respondi, estreitando os meus olhos na direção dele, a minha fisionomia adotando uma postura defensiva e ríspida. — Por um acaso você também está atrás dela?
— No — ele respondeu, ríspido e direto.
— Sei...
O Ethan soltou uma risada curta e baixa, um som rústico carregado de escárnio.
— Eu não sou o tipo de homem que acredita muito em destino, Lorenzo. Você me conhece. Mas preciso admitir que essa porra de vida às vezes sabe ser muito engraçada e sarcástica.
— Do que você está falando, caralho? — esbravejei, perdendo totalmente a pouca paciência que me restava. Bati o punho fechado na mesa, fazendo a madeira estalar. — Desembucha de uma vez.
Ethan deu mais um gole na cachaça, deixando a garrafa de lado na mesa com um impacto seco. Ele se inclinou na minha direção, apoiando as duas mãos na madeira, fixando os olhos verdes dele direto nos meus.
— Acho que nós dois ainda não estamos bêbados o suficiente para aguentar o peso dessa conversa, mas vou te mandar a real de uma vez por todas para você parar de falar merda — ele ditou, a voz saindo firme e sem hesitação. — Você não precisa se preocupar em gastar os seus dias procurando a Antonella pelo mundo. E você muito menos precisa se preocupar em abandonar a Siena para manter a porra da sua honra masculina.
— Você enlouqueceu de vez com a ideia do seu casamento ou esqueceu o que eu acabei de falar sobre honra? Ficou demente, Ethan? — rebati, a minha voz engrossando de pura irritação.
O Ethan soltou o ar com força pelos lábios, me olhando de cima para baixo.
— Você ainda não entendeu, Lorenzo. É porque, de alguma forma muito bizarra, fodida e inacreditável...
— Que conversa sem nexo é essa? Eu bebo e você é quem fica bêbado e falando asneira? — forcei um sorriso de canto, tentando quebrar aquela rigidez que subia pelas minhas costas. — O acordo de casamento é claro. Eu não posso simplesmente ignorar o tratado e ficar com a Siena. Eu não posso casar com as duas mulheres.
— A Siena e a Antonella são exatamente a mesma pessoa. A garota que está com você na Sicília é a minha irmã perdida — ele soltou de uma vez.
O impacto das palavras dele bateu na minha cara, mas o álcool na minha corrente sanguínea fez tudo parecer confuso, distante. Balancei a cabeça, piscando os olhos devagar, tentando organizar os pensamentos.
— O quê? — perguntei, a minha voz saindo arrastada, totalmente perdida.
— É isso mesmo que você ouviu. Antonella Moretti e Siena sei lá o que são a mesma pessoa.
Ele pegou a garrafa novamente e virou o resto da cachaça direto no gargalo, engolindo tudo.
— Que porra é essa, Ethan? — balancei a cabeça, sentindo uma queimação de irritação começar a subir pelo meu estômago. — Que piada sem graça é essa?
— É sério, Lorenzo. Estou falando muito sério. E olha que eu não custumo falar sério sobre quase nada.
— O quê?

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