POV/ Alessia
Os dias que se seguiram foram marcados por uma rotina militar e uma ausência ensurdecedora. Dominic Ferraro havia evaporado.
Canário era minha única ponte com o mundo exterior. Ele me buscava no horário de costume, vigiava meus treinos pesados no saco de pancadas e me escoltava para refeições reforçadas que eu comia em silêncio absoluto. Eu corria até meus pulmões arderem, tentava manter meus reflexos afiados, mas meus olhos sempre buscavam aquela silhueta imponente pelos cantos da casa. Nada. O que eu soube, por alto, era que ele estava ocupado fazendo resolvendo e criando estratégias para o sábado. Não vi guardas e não vi o irmão mais novo e nem Lorenzo que estava no Brasil ajudando Moretti.
O vestido de seda prateada já estava pendurado no manequim do meu quarto, brilhando sob a luz da lua como uma pele de serpente. Uma promessa silenciosa de que o sábado chegaria como um furacão. A costureira veio e saiu como uma sombra, ajustando cada milímetro do tecido para que ele abraçasse minhas curvas como uma segunda pele. Ficou perfeito. Perigoso. Ofensivo.
Na sexta-feira de manhã, a porta do quarto se abriu novamente. Eu já esperava pelo Canário, mas quem preencheu o vão da porta foi Dominic.
— Pronta para o último dia de adestramento, principessa? — ele perguntou, girando a chave no dedo com um desdém charmoso.
Não respondi. Apenas cruzei os braços e passei por ele, sentindo o rastro de seu perfume me envolver. Descemos para o pátio, e a casa continuava estranhamente silenciosa, mergulhada em uma calmaria que me deixava em alerta.
— Cadê os seus soldadinhos, Ferraro? — perguntei, sentindo falta da agitação que vi quando cheguei.
— Organizando o comboio. O casamento foi antes de ontem, dia nove, mas a festa do Killian amanhã, dia doze, é para onde não podemos ir desprevenidos. Eu estava fazendo alguns preparativos; aquele lugar vai ser o verdadeiro ninho de cobras. Meus homens estão garantindo que ninguém morra antes do brinde oficial.
Caminhamos em direção ao setor de treinamento de tiro, nos fundos da propriedade. O sol batia no meu rosto, mas o frio na minha barriga era constante. Parei abruptamente e o encarei, as mãos na cintura.
— Me diga a verdade. O que você quer com o meu pai? Você já tem a mim. Por que todo esse teatro?
Dominic parou e se aproximou, a sombra dele me engolindo por completo. Ele passou a mão pelo meu rosto, um toque frio e, ao mesmo tempo, eletrizante que me fez querer recuar e avançar ao mesmo tempo.
— Eu já te disse, Alessia. Eu quero o que me foi tirado. Os territórios. Quero que o Leopoldo sinta o gosto do ferro na boca cada vez que ele pensar em você. Quero fazer com você o que fizeram com a minha mãe. Quero quebrar a linhagem Lombardi até não sobrar nada além de pó e arrependimento.
— Então por que não faz logo? — desafiei, meu coração acelerado contra as costelas. — Você já teve mil chances. Por que me ensinar a lutar? Por que me dar vestidos caros? Por que não acaba logo com isso?
Ele sorriu, mas não foi um sorriso bonito. Foi o sorriso de quem guarda um segredo sombrio atrás dos olhos heterocrômicos.
— Porque tudo tem o seu tempo, gatinha. Eu nunca me importei com nada, mas com você... eu quero me divertir um pouco mais. Quero ver você brilhar no meio daqueles lobos no sábado para depois te quebrar e mandar os cacos de volta para o quarto de luxo do seu pai em uma caixa de sapatos. Quero mostrar que ele está perto e muito longe ao mesmo tempo.
Ele se afastou e me entregou uma arma. Senti o peso frio e letal do metal na palma da mão.
— Hoje é o seu último treino. Vamos ver se você consegue acertar o alvo ou se só serve para latir.
Fomos para a linha de tiro. Eu apontei para o boneco de silhueta, mas, em um impulso de audácia, girei o corpo e apontei o cano diretamente para o peito dele. Dominic nem piscou. Ele continuou parado, com os braços cruzados, observando-me com um tédio divertido que me irritava profundamente.

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