( UM CAP. UM POUCO MAIOR...) DESFRUTEM...
Ela manteve o olhar fixo no nosso e levou o dedo indicador aos lábios ensanguentados. Shhh. Aquele sinal de silêncio foi o gesto mais cruel e amargo que vi na vida. Ela sorriu para nós uma última vez, um sorriso de adeus, antes de a virarem para que ficasse costas no chão e abrirem suas pernas e continuarem o revezamento sobre seu corpo. Eles bateram no rosto dela, apertaram sua carne, e eu era novo demais para processar a palavra "estupro", mas velho o suficiente para entender que estavam a machucando e matando a alma dela.
Quando terminaram, arrastaram-na pelos cabelos para fora. O som do corpo dela sendo puxado pelo tapete se misturava às risadas deles. "Putinha gostosa", um deles cuspiu, ajeitando o cinto. "Podia ter comido atrás também", outro completou, rindo como se estivesse saindo de um bar. "Faria isso todo dia, pena não ter uma filha para a gente terminar o serviço".
Dominic não se mexeu. Ele permaneceu estático por um momento e depois apenas alisou a cabeça do pequeno Cassian em um gesto mecânico, enquanto o mundo desmoronava ao nosso redor. Ele já tinha o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS) com Psicopatia Primária. Biologicamente, o cérebro dele era incapaz de processar medo, empatia ou ansiedade; as engrenagens da mente dele simplesmente não sintonizavam essas frequências.
Mas, naquele momento, o brilho nos olhos heterocrômicos dele, inundados por lágrimas silenciosas, dizia o contrário: ele estava sofrendo. E qual seria o tamanho dessa dor, para fazer alguém que nasceu "dormente" chorar?
Pude sentir que ele perdeu um pedaço da alma ali mesmo, debaixo daquela cama.
Dominic demorou um tempo que pareceu uma eternidade para processar o que tinha acabado de ver. Era como se a máquina dentro dele estivesse entrando em colapso, tentando computar uma agonia que ele não deveria ser capaz de sentir, mas que o estava destruindo por dentro. Eu não sabia o que dizer então apenas fiquei olhando.
Ele respirou fundo limpou as lagrimas, beijou a testa do Cassian, segurou a minha mão e disse:
— Vou proteger vocês, eu serei uma muralha de ferro e eu vou proteger vocês. Eu juro que vou proteger vocês. — E desde então nunca mais o vi chorar, amar e nem titubear.
Pulamos a janela do segundo andar. No impacto, um galho seco furou meu peito e meu ombro direito. A dor foi aguda, um rasgo que fez o sangue quente começar a molhar meu pijama rapidamente. Eu comecei a chorar, o soluço subindo pela garganta, mas Dominic me puxou com uma violência necessária, calando meu choro apenas com o olhar. Cassian que também era um bebê bem calmo se assustou e começou a fazer a careta. Mas Dom segurou o dedinho dele. E ele sorriu.
Nos escondemos nos arbustos do jardim, o cheiro de terra úmida e pólvora impregnando tudo. E lá estava ele. Leopoldo Lombardi. O homem que, até pouco tempo atrás, chamávamos de "Tio Poldo".
Meu pai estava de joelhos, o rosto desfigurado pelo sangue. Ele tentou rosnar o nome da Iron Force uma última vez, uma tentativa desesperada de manter a honra, mas a lâmina de Lombardi foi mais rápida. Vi a cabeça do meu pai ser separada do corpo com um som úmido que nunca saiu dos meus ouvidos.
Enquanto o corpo dele tombava, vários homens gritavam "Fartalle!", um nome que se cravou na minha memória como uma marca a ferro quente.
Logo depois, trouxeram minha mãe. Ela parecia uma boneca de pano desfeita. Estava descabelada, com as roupas rasgadas e o sangue escorrendo pelas pernas, sua nudez revelada de forma humilhante diante daqueles animais. Ela era uma mulher tão bonita; olhos azuis profundos, cabelos pretos como a noite. Mesmo após duas gestações, ela continuava linda. Dominic e eu éramos os filhos biológicos, o sangue legítimo de Rocco, enquanto Cassian era adotado um segredo que juramos manter para todo o sempre, uma verdade que morreria conosco.
Dominic olhou a cena com uma mistura de repulsa e juro que vi o brilho de dor insuportável em seus olhos bicolores.
Queríamos gritar até rasgar a garganta, mas o trauma transformou nossas vozes em deserto. O barulho do tiro assustou o pequeno Cassian no colo de Dom novamente ele começou a chorar alto. E eu senti que, a partir daquele segundo, eu nunca mais seria apenas uma criança. Eu era um Ferraro. E os Ferraro não esquecem.
***
Tentamos ficar escondidos, estávamos um pouco afastados talvez não ouvissem o choro de Cassian. Pelo vão dos arbustos, vi quando jogaram gasolina e o fogo começou a lamber as paredes. Ouvi os gritos deles nos procurando, chamando nossos nomes como se fosse uma brincadeira de caça. Até que um soldado parou diante de nós.
— Eu os achei — ele anunciou.
— Mate-os! — alguém gritou do fundo.
— O mais velho é um monstro igual ao pai. Mate-o. — Casmurro ordenou, a voz carregada de nojo.
O soldado que não conhecia olhou para Dominic, depois para o volume de Cassian amarrado sob a blusa dele. Ele hesitou. Olhou para Lombardi, que já brindava à vitória com um copo na mão, e cuspiu no chão.
— Eu vou me livrar deles — o homem disse, agarrando-nos e nos arrastando com violência.
Esse homem devia ter por volta de uns 20 anos não era um rapaz muito mais velho que isso, e eu percebi o suor escorrendo em sua testa.
Fomos jogados em uma caminhonete. Ele entrou na porta da frente e começou a dirigir e um outro soldado gordo, fedorento se sentou no banco atrás junto conosco.
Eu me debati e gritei, até que o fedorento apontou uma arma para a minha cabeça e eu me calei. Dominic não disse uma palavra; ele apenas segurou minha mão com força o caminho todo, um aperto que dizia que ele ainda estava ali. Enquanto tentava acalmar Cassian que chorava sem cessar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Virgem Roubada pelo Mafioso Psicopata :CONTRATO DE SANGUE