Renata
A lanchonete ainda estava silenciosa quando entramos. As luzes amarelinhas foram acesas uma a uma, iluminando o balcão, as mesas simples e os potinhos de açúcar que minha madrinha sempre deixava alinhados, mesmo quando jurava que era “desorganizada”.
O cheiro característico de lugar que abre cedo café, massa, limpeza começou a preencher o ar assim que ela acendeu a cafeteira.
— Senta ali, minha filha. Minha madrinha apontou para a mesa perto da janela, onde o sol ainda não chegava. Vou fazer uma coisinha pra você.
Eu obedeci, sentindo algo apertar o peito. Aquela mesa… quantas vezes eu não tinha sentado ali, criança, enquanto minha mãe conversava e ria com a madrinha?
O barulho da frigideira quente me arrancou desse pensamento.
— Madrinha, a senhora está fazendo panqueca? perguntei, reconhecendo o cheiro antes mesmo de ver.
Ela olhou por cima do ombro e sorriu.
— A mesma receitinha que sua mãe adorava. disse com ternura. Você sempre comia duas, bem quentinhas, lembra?
Meu coração amoleceu.
— Lembro… murmurei, sentindo os olhos arderem. Lembro da senhora fazendo café e das duas conversando enquanto eu desenhava no balcão…
— Pois é ela disse, virando a panqueca com habilidade. E eu sempre dizia pra sua mãe que você ia ser alguém grande. E vou dizer de novo: você vai ser.
Ela colocou o prato na minha frente. Panquecas fofinhas, douradinhas, manteiga derretendo por cima. Um abraço da infância.
Dei a primeira garfada e quase chorei.
— Estava com saudade disso… admiti, sorrindo pequeno. De tudo isso.
A madrinha se sentou na minha frente com uma caneca de café e ficou me observando como só alguém que realmente ama faz.
Respirei fundo, sentindo que precisava contar.
— Madrinha… faz uma semana que saiu a nota da universidade. comecei, com a voz ficando baixa. Eu passei em medicina.
Ela arregalou os olhos, depois abriu um sorriso que iluminou o rosto inteiro.
— Minha filha, que orgulho! Eu sabia! Ela bateu palmas baixinho, emocionada. Sua mãe deve estar lá no céu fazendo festa!
Mas meu sorriso não acompanhou o dela.
— O problema é que… eu não sei se vou conseguir fazer. É um curso caro. Material… transporte… alimentação… tudo isso pesa. E agora então…
Tereza me interrompeu com a mão levantada.
— Renata, olha pra mim.
Eu ergui os olhos lentamente.
— Você vai estudar medicina sim. disse com firmeza. Você não vai morar longe. Não vai gastar com aluguel. E aqui… ela olhou ao redor da lanchonete qui você pode me ajudar sempre que puder. Não precisa ser todo dia, não precisa ser pesado. Só quando der.
Ela encostou a mão sobre a minha.
— Seu foco vai ser os estudos. O resto… a gente dá um jeito. Sempre demos.
O nó na minha garganta era quase impossível de engolir.
— Madrinha… eu não quero pesar pra senhora…
Os olhos dela se encheram, mas não de tristeza e sim de verdade.
— Filha… eu daria tudo pra ter meu filho aqui comigo dividindo essas despesas. Ela respirou fundo, a voz embargando. Mas ele se perdeu nessa vida. E eu… eu sou sozinha. Me deixa te ajudar. Me deixa fazer isso por nós duas… por mim, por você, e pela sua mãe.
As lágrimas escorreram antes que eu pudesse segurar.
— Madrinha…


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