Acordei com uma sensação estranha no baixo ventre.
Não era dor exatamente. Era um desconforto surdo, constante, como um peso diferente daquele da gravidez. Minha barriga já estava enorme, redonda, viva. O bebê se mexia com força, como se quisesse me lembrar que estava ali, ocupando espaço, crescendo.
Mas havia também o tumor.
Essa palavra não saía da minha cabeça.
Passei a mão devagar sobre a barriga enquanto ainda estava deitada. Adriano dormia ao meu lado, com a respiração profunda e tranquila. Ele parecia exausto nos últimos dias. Tenso. Vigilante. Mas dormindo parecia estar em paz.
Levantei devagar e fui ao banheiro. O incômodo continuava.
Quando voltei para o quarto, ele já estava sentado na cama.
— Está tudo bem? — perguntou, a voz ainda rouca de sono.
— Está… só um desconforto.
Ele já estava de pé.
— Que tipo de desconforto?
— Adriano, calma. Não é dor forte. É só… uma pressão.
Ele se aproximou e colocou a mão na minha barriga.
— Ele está mexendo?
— Está.
— Então está tudo bem.
Eu quis acreditar.
Passei o dia praticamente deitada no sofá. Adriano não saiu de perto de mim. Trouxe água, frutas, ajeitou almofadas nas minhas costas.
— Você vai me deixar mimada — brinquei.
— Essa é a ideia.
— Eu estou me sentindo inútil.
Ele se sentou ao meu lado. Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
O desconforto não piorou durante o dia, mas também não foi embora. À noite, eu já estava cansada de me sentir frágil.
Adriano apareceu na sala, encostando na porta.
— Você se sente bem o suficiente para sair?
— Sair?
— Jantar fora. Um lugar bonito. Só nós dois.
Meus olhos brilharam sem que eu conseguisse disfarçar.
— Eu quero.
— Se você não se sentir bem, a gente volta na mesma hora.
Eu sorri.
Ele pegou o celular.
Fiquei ouvindo ele fazer a reserva.
— Uma mesa para dois… sim… hoje… perfeito.
Quando desligou, veio até mim e me deu um beijo na testa.
— Vai ser uma noite especial.
— Só pelo fato de eu estar usando roupas que não sejam pijama já é especial.
Ele riu.
***
Escolhi o vestido verde claro que Adriano tinha me dado de presente semanas atrás. Longo, leve, com pequenos lacinhos delicados logo abaixo do busto, acomodando minha barriga com suavidade.
Quando saí do quarto, ele ficou parado me olhando.
— Uau!
— Está exagerando.
— Não estou.
Ele se aproximou devagar.
— Você está linda, Marja.
— Mesmo enorme assim?
Ele ajoelhou levemente, beijando minha barriga.
— Especialmente assim.
Meu coração quase não coube no peito.
***
O restaurante era elegante. Luzes amareladas, suaves, mesas bem-postas, música baixa ao fundo. Um ambiente aconchegante que me fez suspirar assim que entramos.
— Adriano… — sussurrei — é lindo!
— Você merece.
— Eu estou me sentindo… normal de novo.
Ele puxou a cadeira para mim.
O jantar foi leve. Conversamos sobre o bebê, sobre como seria a casa cheia de brinquedos.
— Ele vai puxar sua teimosia — eu disse.
— E sua sensibilidade.
— Espero que não puxe minha ansiedade.
Ele riu.
Em determinado momento, coloquei a mão sobre a barriga. Ele sorriu daquele jeito que sempre me desmonta.
Quando terminamos, descemos para a frente do restaurante. A área externa era arborizada, com árvores iluminadas por pequenas lâmpadas douradas.
— Vou chamar o manobrista — ele disse.
— Eu vou ao banheiro rapidinho. É ali do lado, né?
— Eu espero aqui.
O resto do caminho foi silencioso. Eu olhava pela janela, tentando organizar meus sentimentos. Quando chegamos em casa, fui direto para o quarto. Tirei os sapatos com cuidado e sentei na cama.
Adriano entrou logo depois.
— Marja…
— Você ainda ama Antonella? — perguntei cheia de insegurança.
A pergunta saiu mais baixa do que eu esperava.
Ele não hesitou. Sentou-se ao meu lado e me abraçou por trás, envolvendo minha barriga com cuidado.
— É diferente, Marja.
— Diferente como?
— Antonella é o meu passado. Foi importante. Foi real. Mas acabou.
Fiquei em silêncio.
Ele encostou o queixo no meu ombro.
— Você é o meu presente. É você quem eu amo. Eu não preciso mentir sobre isso.
Virei-me para encará-lo. E pisquei algumas vezes antes de falar:
— Eu tive medo agora.
— De quê?
— De ser comparada.
Ele me beijou com delicadeza.
— Você não precisa se sentir assim. Você é única para mim.
As palavras dele entraram devagar, mas ficaram. Ele deslizou a mão pela minha barriga.
— Eu escolhi você. Todos os dias.
— Mesmo com tudo isso acontecendo? — eu me referia ao tumor.
— Principalmente com tudo isso.
Eu me aproximei mais, sentindo o calor do corpo dele.
Ficamos assim por alguns segundos, respirando juntos.
Ele começou a me beijar devagar, com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar. Seus lábios percorreram meu pescoço, minha clavícula, sempre atentos ao meu conforto.
— Está tudo bem? — ele murmurou.
— Está.
Os toques eram lentos, delicados. Sem pressa. Sem urgência. Como se estivéssemos reafirmando algo maior do que desejo. Ele me deitou com cuidado, beijando minha barriga antes de voltar para meus lábios.
Naquela noite, fizemos amor de forma serena. Com carinho. Com respeito ao meu corpo volumoso e à vida que crescia dentro de mim. Não havia pressa. Apenas entrega.
Quando terminamos, ele me abraçou, mantendo a mão sobre minha barriga.
— Eu amo você — ele repetiu, baixo.
Fechei os olhos. Eu acreditava nele.

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