ADRIANO
A porta da sala de cirurgia se fechou diante de mim com um som seco.
Eu fiquei parado por alguns segundos olhando para aquela placa vermelha acesa — EM PROCEDIMENTO — como se, se eu encarasse o suficiente, ela fosse me devolver a minha esposa.
Minha esposa.
A palavra ainda parecia nova, preciosa demais para ser pronunciada num corredor frio de hospital.
Uma enfermeira tocou meu braço.
— O senhor pode aguardar na sala de espera. Assim que tivermos notícias, avisamos.
Notícias.
Eu assenti, mas não senti as pernas quando comecei a andar. Era como se meu corpo tivesse ficado para trás e apenas minha mente estivesse correndo, desgovernada.
Sentei numa poltrona de couro encostada na parede. As mãos então começaram a tremer, quando não havia mais ninguém olhando.
Durante todo o trajeto até ali eu fui o homem firme. O que ligou para o médico. O que dirigiu rápido. O que disse “vai dar tudo certo”. O que segurou o rosto dela e prometeu que ela ia acordar.
Mas agora não havia mais ninguém para quem eu precisasse mentir. Eu estava em frangalhos. Passei as duas mãos pelo rosto e senti o calor das lágrimas antes mesmo de perceber que estava chorando.
O hospital tinha aquele cheiro estéril que me fazia querer vomitar. Cheiro de lembrança. Cheiro de passado. Cheiro de perda.
E foi impossível naquele momento não me lembrar do acidente com Antonella grávida. Eu fechei os olhos.
E ali estava eu de novo. Outra mulher que eu amava. Outro filho do outro lado de uma porta fechada. Outro corredor branco.
Era como se a vida estivesse me levando de volta ao mesmo penhasco. Eu sentia isso com clareza absurda: estava à beira de um despenhadeiro.
Um passo.
Apenas um passo. E eu não sabia se aquele próximo movimento me levaria ao salvamento… ou à queda definitiva.
Apoiei os cotovelos nos joelhos e abaixei a cabeça.
— Não… — murmurei para mim mesmo. — Não de novo.
Eu tinha sido forte demais nos últimos meses. Forte quando Marja recebeu a notícia do tumor. Forte quando ela chorou no meu peito dizendo que tinha medo. Forte quando eu fingia dizendo para ela que aquilo não era nada.
Eu nunca mais havia dormido direito depois que o médico me disse a sós que aquele tumor no útero dela estava grande demais e tinha 90 por cento de chances de ser maligno. E que era tão prejudicial para ela quanto para o bebê. Infelizmente... ou felizmente, o resultado final ainda não havia saído.
Parei diante da porta da sala de cirurgia.
Eu prometi para mim mesmo que nunca mais amaria alguém daquele jeito depois de Antonella. Prometi que nunca mais me permitiria ser tão vulnerável. E então Marja apareceu. Com aquele jeito doce ela me fez acreditar de novo. Me fez sonhar de novo.
Voltei para a poltrona. Enterrei o rosto nas mãos. O silêncio do hospital era cruel. Cada vez que uma porta abria, meu coração disparava. Cada vez que alguém chamava um nome, eu me encolhia por dentro.
Eu queria os dois: ela e o bebê. A ideia de perder um deles me rasgava por dentro. E eu me sentindo tão pequeno!
Os minutos se arrastavam. Eu olhei para o relógio da parede. Meu peito doía. Eu respirava fundo, mas o ar não parecia suficiente.
De repente, a porta da sala de cirurgia se abriu. Eu levantei tão rápido que quase tropecei. O médico saiu, ainda de máscara. Meu coração parou.
— Doutor?
Ele tirou a máscara devagar. O rosto dele estava sério. Sério demais.
Eu senti o mundo inclinar sob meus pés.
Ali estava o momento. O passo.
O salvamento… ou a queda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO