Dois anos depois...
Dois anos se passaram desde o dia em que entrei naquela sala de parto achando que poderia não voltar. Dois anos desde que segurei meu filho pela primeira vez e descobri, horas depois, que o tumor que ameaçava minha vida era benigno.
Hoje o sol b**e quente sobre a vila, e o vento levanta o pó da praça onde metade do povoado se reuniu. Estou de olho nos meus filhos: Cecília, que já tem oito anos, é a postura de quem acha que é adulta. E Alex — meu bebê grande, de pernas gorduchas e passos apressados, que corre atrás da irmã com a determinação de um pequeno guerreiro.
— Cêci! Espera eu! — ele grita, tropeçando.
Ela ri, aquele riso aberto que eu amo tanto, e olha para trás só para provocar.
— Você é muito lento, Alex!
Alex acelera e cai.
Meu coração ainda dispara toda vez que ele cai. É automático. Um reflexo que ficou de tudo o que vivi.
— Alex! — eu me abaixo antes mesmo de perceber.
Mas ele já está sentado no chão, olhando para os próprios joelhos, como se estivesse avaliando o estrago. Depois levanta o rosto e sorri.
— Não dodói.
Eu rio aliviada, limpando a poeira da bermuda dele.
— Você é forte, igual ao papai.
Adriano está alguns metros à frente, ao lado do prefeito da cidade e de algumas autoridades. O jeito como se posiciona faz com que todos ao redor pareçam coadjuvantes. Não é pela arrogância. É pela presença. Pela segurança silenciosa que ele carrega.
Ele cruza o olhar comigo por um instante. A placa coberta por um tecido azul está atrás dele. A nova escola do povoado. Ele mandou construir aquela instituição de ensino como um presente para mim. E ela terá o meu nome: ESCOLA MARJA PINHEIRO.
Para mim.
— Marja, essa escola é toda sua? — Cecília pergunta, apertando minha mão.
— Ela é nossa; é minha e também é de toda a comunidade — eu respondo, engolindo o nó na garganta.
O prefeito começa a discursar. A voz dele ecoa no microfone improvisado.
— Hoje é um dia histórico para a nossa cidade! — ele anuncia. — Esta instituição representa oportunidade, crescimento e futuro para nossas crianças. E nada disso seria possível sem a generosidade do senhor Adriano Pinheiro e da sua esposa Marja Pinheiro, cujo nome estará representado para sempre na fachada da escola.
As pessoas aplaudem. Eu olho para o homem que eu amo.
Adriano não gosta de palco. Não gosta de elogios públicos. Ele abaixa levemente a cabeça, quase constrangido. Quando os aplausos ficam mais intensos, ele apenas levanta a mão em agradecimento, discreto como sempre.
— Papai é importante, não é, Marja? — Cecília cochicha.
Eu sorrio.
— Muito.
Alex começa a se mexer inquieto no meu colo.
— Quente… — ele reclama.
— Vamos ali um pouquinho — eu digo, percebendo pelo peso na fralda que é hora da troca.
Sento-me num banco mais afastado, à sombra de uma árvore. Abro a bolsa, espalho a fraldinha limpa sobre minhas pernas e deito Alex com cuidado.
Enquanto troco a fralda dele, ouço o discurso continuar ao fundo. Mas minha mente viaja.
Eu lembro da luz branca do centro cirúrgico. Do cheiro de hospital. Do medo. Lembro do momento em que acordei, a garganta seca, o corpo pesado, e a primeira pergunta que saiu dos meus lábios foi:
— Quero ver meu filho. Onde ele está?
A enfermeira sorriu.
— Ele está muito bem. Forte e lindo. Já,já eu o trago para a senhora.
Depois veio o médico. Ele se aproximou da minha cama, com aquele semblante sério que me fez prender a respiração.
— Como está se sentindo, Marja? — ele perguntou.
Não consegui responder. Eu achei que fosse morrer ali mesmo, antes até de ouvir o que ele tinha para me dizer.
— O tumor era muito grande… — ele começou — mas era benigno.
Eu chorei antes que ele terminasse.
— Conseguimos retirar completamente. Seu útero foi preservado. Não houve nenhuma sequela.
Naquele dia, eu senti como se tivesse nascido de novo. Deus foi generoso comigo. Generoso demais.
— Mamãe! — Alex me puxa de volta ao presente, tentando se levantar antes que eu termine.
— Calma, campeão! — eu rio, fechando a fralda. — Ainda não acabou.
Ele segura meu rosto com as mãozinhas e me dá um beijo babado na bochecha.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Obrigada, Deus.
Olho para Adriano e ele faz um sinal me chamando. Vou até lá com Alex no colo, segurando a mãe de Cecília e fico ao lado do meu marido. Nós quatro ficamos alinhados no palco, de frente para as pessoas da comunidade e Adriano começa a discursar:
Eu cruzo os braços, fingindo indignação.
— Assim não tem graça! Eu queria te fazer uma surpresa.
— Para mim, foi surpresa quando te vi enjoar. E eu estou feliz. Agora só faltam mais três.
— Três o quê?
— Três gestações. Combinamos que teríamos seis filhos, você esqueceu?
— Você estava mesmo falando sério?
— E por que você acha que não era sério?
— Não está preocupado?
— Não — ele responde firme — O que aconteceu ficou no passado.
Meu coração amolece. Ele estende a mão e segura a minha.
— Nós vamos fazer tudo com cuidado. Com acompanhamento. Com calma. Mas não vamos deixar o medo roubar nossa alegria.
Cecília interrompe do banco de trás:
— Quem vai roubar a gente, pai?
Eu rio entre lágrimas.
— Ninguém, meu amor!
Adriano aperta minha mão.
— O que importa, Marja é que... eu nunca fui tão feliz.
Eu olho para ele. Para o homem que ficou na sala de espera fingindo ser forte enquanto se desmantelava por dentro. E que nunca deixou de acreditar em nós.
— Eu te amo — eu digo.
Ele nem hesita ao dizer:
— Você e as crianças são a minha vida.
Alex murmura algo sonolento atrás. Cecília começa a cantarolar baixinho. E eu encosto a cabeça no ombro de Adriano enquanto ele dirige.
Dois anos atrás, eu temia não ver meus filhos crescerem. Hoje, estou carregando mais uma vida. Eu tive uma nova chance. E eu prometo, em silêncio, honrar cada segundo da minha vida.

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