A porta automática do hospital se abriu diante de nós, e o ar da cidade me atingiu no rosto. Senti o peso da minha barriga enorme, pesada, viva. Meu bebê se mexia devagar, como se sentisse que algo tinha mudado. E tinha. Dentro de mim, além dele, havia um tumor. Uma palavra pequena demais para carregar tanto peso.
Ainda não sabíamos a gravidade. Só saberíamos depois dos exames. Dias de espera. Dias que pareciam um abismo.
Adriano mantinha a mão firme nas minhas costas, enquanto caminhávamos até o carro.
— Devagar — ele murmurou.
— Eu ainda sei andar — respondi, tentando sorrir.
Ele abriu a porta com cuidado e me olhou sério.
Durante o trajeto até em casa, falamos pouco. Eu observava os prédios passando pela janela enquanto sentia o bebê se mexer.
— Ele está chutando — murmurei.
Adriano desviou uma mão do volante e pousou sobre minha barriga.
— Está mesmo?
— Está bravo.
— Com quem?
— Com a gente. Talvez esteja dizendo para pararmos de ficar tensos.
Ele sorriu de canto.
— Já tem personalidade.
— Puxou o pai — eu falei.
Ele riu baixinho.
— Espero que puxe sua coragem — ele falou.
Coragem.
Eu não me sentia corajosa. Eu me sentia assustada.
Quando chegamos à minha casa, ele estacionou e desceu rapidamente, contornando o carro para me ajudar.
Pensei que fosse ficar traumatizada e odiar minha casa depois de tudo o que aconteceu comigo ali debaixo das ameaças de Gino. Mas a presença de Adriano me tranquilizava. Quando ele estava por perto eu sentia uma segurança que nunca havia sentido antes com ninguém.
— Adriano, eu consigo.
— Eu sei — ele repetiu. — Mas deixa eu cuidar de você.
Caminhamos devagar. Cada passo era um lembrete do peso da barriga e do peso das palavras do médico.
Assim que entramos, ele fechou a porta atrás de nós. Observei que a casa estava muito arrumada e sem nenhuma poeira. Com certeza Adriano havia conseguido alguém para limpar a casa e tirar os vestígios da violência que Gino havia deixado. E assim, não havia nenhum indício de que um dia Gino houvesse pisado ali.
Não falamos sobre o que aconteceu. Eu mesma queria deixar tudo no passado, principalmente sabendo que Gino havia morrido depois dos tiros que recebera dos policiais. Poderia parecer um pensamento cruel, mas agora eu sabia que ele nunca mais tiraria a minha paz.
Adriano ficou encostado na porta, me olhando de um jeito diferente.
— O que foi? — perguntei um pouco tímida.
— Você tá linda!
— Não mente. Estou enorme.
— E linda.
A forma como ele disse aquilo fez meu peito apertar. Ele se aproximou e beijou minha testa.
— Você vai voltar para a fazenda amanhã? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Não.
— Adriano…
— Não vou voltar, Marja.
— E a fazenda?
— A fazenda funciona. Eu tenho equipe. Tenho telefone. Tenho carro. Mas você… — ele tocou minha barriga com cuidado — você precisa de mim aqui.
— Eu não quero atrapalhar sua vida.
Ele segurou meu rosto com firmeza.
— Você é a minha vida.
Eu não consegui responder. Apenas fechei os olhos por um segundo, sentindo o peso daquela frase.
***
À tarde, sentei no sofá com o celular nas mãos.
— O médico me deu afastamento do trabalho, mas eu não queria me ausentar. Gosto tanto do que faço. — falei, lamentando a situação.
Adriano estava na cozinha, organizando algumas coisas.
— Mas o que está em jogo agora é a sua saúde e a saúde do nosso bebê.— ele falou.
— Eu odeio me afastar assim.
Ele apareceu na sala, apoiou as mãos nos meus ombros e ficou olhando para mim, querendo me repreender. Em seguida ele riu e disse:
— Você sabe qual é o certo a fazer.
— Eu não queria que ninguém soubesse do tumor, até que tudo fosse resolvido.
— Você não precisa explicar nada agora.
Suspirei. Disquei para Elena:
— Oi, Elena. Sim, eu recebi alta hoje... e também recebi um relatório do médico me afastando do trabalho. Não tenho mais condições de trabalhar até o bebê nascer.
Ouvi a voz compreensiva de Elena do outro lado da linha.
— Não se preocupe, Marja. Daremos conta. O importante é que você e o bebê fiquem bem.
Conversamos mais por alguns minutos, nos despedimos e eu desliguei.
Quando coloquei o telefone no sofá, meus olhos estavam marejados.
— Pronto — falei.
Adriano se agachou na minha frente.
— Orgulhoso de você.
— Pelo quê? Estou me sentindo inútil agora.
— Por priorizar a si mesma e o nosso filho.
***
Enquanto Adriano cozinhava eu o observava e me sentia um pouquinho constrangida com todo aquele cuidado. No começo da noite, o cheiro de comida começou a se espalhar pela casa.
— O que você está cozinhando? — perguntei da porta da cozinha.
— É segredo — Adriano respondeu.
Ele estava de camisa com as mangas dobradas, concentrado na panela.
— O que é? Me fala!
— Algo que você pode comer sem passar mal. O médico foi bem claro sobre alimentação.
Encostei na bancada, observando-o.
— Você não precisava fazer isso.
— Eu quero fazer isso.
— Você não vai se cansar de cuidar de mim?
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO