Os dias começaram a passar rápido demais.
Entre consultas, repouso, pequenos desconfortos e momentos de riso inesperado, o tempo parecia correr sem pedir permissão. Minha barriga crescia a cada semana. Pesada. Redonda. Linda. Às vezes eu me pegava parada diante do espelho, passando as mãos devagar sobre a pele esticada, tentando conciliar dentro de mim duas realidades: a vida que crescia e a sombra silenciosa do tumor que ainda aguardava um veredito.
— Está pensando demais de novo — Adriano disse certa manhã, surgindo atrás de mim e envolvendo minha barriga.
— Só estou observando — respondi, olhando nosso reflexo no espelho.
Ele beijou meu ombro.
Foi numa dessas manhãs tranquilas que a campainha tocou.
Adriano foi atender, e eu ouvi uma voz feminina animada ecoar pela sala.
— Surpresa!
Meu coração reconheceu antes dos meus olhos.
— Catarina!
Ela entrou como um furacão de alegria, me abraçando com cuidado por causa das nossas barrigas. A dela já estava aparecendo.
— Olha você! Está enorme! — Catarina falou.
— Obrigada pela delicadeza — brinquei, rindo.
Leon apareceu logo atrás, sorridente, bronzeado da lua de mel.
— Não acredito que perdi esse crescimento todo. — ele falou.
— Vocês sumiram do mapa — Eu comentei.
— Lua de mel é para isso — Catarina respondeu, piscando.
— E como anda essa gravidez? — Adriano perguntou, abraçando a irmã.
— Tudo perfeito! É uma menina.
— Que maravilha, Catarina! — Eu a abracei. — Já tem nome?
— Ainda estamos decidindo, Leon falou.
A casa ficou cheia de energia. Era como se o mundo lá fora — exames, medos, incertezas — tivesse sido temporariamente suspenso.
— Vamos almoçar fora — Leon sugeriu. — Precisamos comemorar nossa volta.
— Eu topo — falei imediatamente.
Adriano me olhou avaliando.
— Está se sentindo bem?
— Estou. E quero sair.
O restaurante escolhido era elegante, mas descontraído. Catarina e eu ficamos na mesa enquanto Adriano e Leon disseram que precisavam “resolver uma coisa rápida”.
— Rápida quanto? — perguntei.
— Já voltamos — Adriano respondeu, beijando minha testa.
Assim que eles saíram, Catarina cruzou os braços e olhou o relógio.
— Vamos cronometrar.
— Você é impossível.
— Experiência de mulher.
— O que você acha que eles foram fazer?
Ela deu de ombros, mas havia um brilho estranho nos olhos dela.
— Coisas de homem.
— Isso não explica nada.
— Exatamente.
Rimos. Conversamos sobre a viagem. Ela descreveu praias, pores do sol, hotéis maravilhosos à beira mar.
De repente Catarina ficou séria e falou:
— Sabe, Marja, você fez um milagre no Adriano. Ele voltou a ser o mesmo homem de antes do acidente. Ele está feliz com você.
— Eu também estou feliz com ele, Catarina.
Os homens voltaram quarenta minutos depois. Sim, Catarina contou o tempo.
— Demoraram— Catarina observou.
— Trânsito — Leon respondeu rápido demais.
Adriano sentou ao meu lado, casual. Talvez casual demais.
O almoço começou animado. Entre risadas e histórias da lua de mel, a leveza dominava a mesa.
Em determinado momento, Adriano olhou para Leon com falsa seriedade.
— Você, Leon, não está numa situação privilegiada.
Leon levantou a sobrancelha.
— Por quê?
Adriano apoiou os cotovelos na mesa.
— Se você magoar minha irmã, eu quebro a sua cara.
Catarina gargalhou.
— Ele está falando sério — ela disse, ainda rindo.
Leon levantou as mãos em rendição.
— Eu jamais ousaria. Nunca vou magoar minha princesa.
Depois de mais risadas, Adriano ficou sério de novo.
— Vocês fizeram o certo, se casando logo. A família é a coisa mais importante.
Houve um pequeno silêncio respeitoso. Então Catarina se levantou de repente.
— Vou fazer uma ligação rápida.
Leon também se levantou.
— E eu vou ao banheiro.
Eu observei os dois se afastarem.
— Estranho — murmurei.
A igreja estava silenciosa, iluminada por vitrais que deixavam a luz da tarde entrar colorida.
Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir.
Catarina segurou minha mão, me puxou para uma salinha nos fundos e começou a me vestir. Ela havia alugado um vestido de noiva lindo: cintura logo abaixo do busto, estilo império, todo de renda. E para completar, sapatos brancos. Depois da maquiagem improvisada e do penteado, Catarina falou:
— Agora, se veja.
Quando me olhei no espelho me surpreendi. Eu parecia outra pessoa. Eu era mesmo uma noiva. E ia me casar.
— Está perfeita! — Catarina falou.
Eu estava me sentindo realmente perfeita!
Leon veio e me conduziu. Fomos caminhando em direção ao altar. Eu segurava o bouquê com mãos trêmulas. Adriano já estava posicionado, elegante, vestido de preto, sapatos brilhantes. Quando cheguei ele deu um passo á frente e segurou minhas mãos.
O padre conduziu a cerimônia com simplicidade. Sem convidados. Sem música. Mas era um casamento de verdade. Eu estava me casando com o homem da minha vida.
— Vocês prometem amar e respeitar o outro, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? — ele preguntou para Adriano.
— Eu prometo — Adriano respondeu.
Em seguida o padre se virou para mim. Eu respondi:
— Eu prometo.
Então eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Adriano segurou meu rosto quando me beijou. Foi o melhor beijo da minha vida.
Quando saímos da igreja, Catarina e Leon nos abraçaram forte.
— Agora vocês são oficialmente família — Catarina disse, emocionada.
Eles se despediram ali mesmo.
Quando ficamos sozinhos, Adriano me olhou e sorriu.
— Já reservei o hotel para hoje.
— Você planejou tudo.
— Quase tudo. Catarina me ajudou.
O Hotel Plaza parecia cenário de filme. Suíte ampla, luz suave, varanda com vista para a cidade e uma enorme piscina aquecida.
Assim que a porta se fechou, ele me puxou para perto.
— Minha esposa — ele murmurou.
— Meu marido — eu sussurrei.
Nos beijamos intensamente naquela sala enorme. Ainda usávamos as roupas do casamento. Eu pedi que Adriano colocasse música e nós valsamos ao som de “o lago dos cisnes”.
Depois fomos para a varanda e bebemos champanhe apreciando a beleza da cidade. Adriano sentou numa namoradeira que havia na varanda. Me sentei no colo dele, de frente, as pernas ao redor do corpo dele e brindamos ao nosso amor e ao nosso futuro.
E naquele momento, ele me beijou com tanto desejo, tanta paixão, despertando em mim aquele sentimento abrasador que era maior do que tudo que eu já sentira.
Nos desfizemos das roupas com uma pressa quase violenta. Eu me ajeitei sobre ele e nos encaixamos. Senti ele todo dentro de mim e meu corpo explodiu em sensações. Era pele e boca, respiração e tato, cheiro e murmúrio. Um desvario perfeito, louco e desenfreado. Ele beijava meu pescoço com beijos ardentes que estavam me matando. E por alguns instantes eu perdi a noção de tudo ao meu redor. Só via ele, só sentia ele.
E quando terminamos, já saciados, nos olhamos e caímos na risada, porque estivemos tão enlouquecidos de paixão que até esquecemos que eu estava grávida, com a barriga enorme.
Eu não poderia ter desejado uma lua de mel melhor do que aquela.
Mais tarde, deitada nos braços do meu marido, olhando o anel que brilhava no meu dedo, eu soube que, independente do resultado dos exames, o que importava era que eu não me sentia mais sozinha. Eu tinha um homem que cuidava de mim. Eu tinha tudo.

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