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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 114

Uma semana após o nosso casamento, eu acordei com um estalo dentro do corpo.

Não foi um barulho alto, mas foi definitivo. Como se algo tivesse cedido. Um segundo depois, senti o calor se espalhando entre minhas pernas, molhando o lençol. Fiquei imóvel, olhando para o teto escuro, tentando negar o que já sabia.

Então veio a dor.

Não era suave. Não era gradual. Era profunda, esmagadora, começando nas costas e apertando minha barriga inteira como um torno de ferro.

— Adriano… — minha voz saiu fraca.

Ele se mexeu ao meu lado.

A segunda contração veio mais forte.

Eu gemi alto.

— Adriano!

Ele acordou assustado, sentando na cama num salto.

— O que foi? Você está bem? — Ele acendeu o abajur e a luz amarela revelou meu rosto contorcido.

Eu engoli em seco.

— A bolsa estourou.

Ele olhou para o lençol molhado. Depois para mim. O rosto perdeu a cor.

— Mas... a cesariana estava marcada para a próxima semana.

Outra contração me atravessou e eu segurei o braço dele com força.

— Ele não quer esperar.

O pânico tomou conta dos olhos dele por alguns segundos. Mas então ele respirou fundo e se transformou na pessoa que ele sempre foi: decidido, prático.

— Tá. Tudo bem. A gente já sabia que isso podia acontecer. Eu vou ligar para o doutor.

Ele pegou o celular com mãos trêmulas.

— É madrugada… — murmurei.

— Ele disse que era para ligar a qualquer hora.

Eu ouvi o telefone chamando enquanto outra onda de dor começava a crescer dentro de mim.

— Atende… atende… — ele sussurrava.

Quando finalmente alguém respondeu, ele falou rápido demais.

— Doutor, é o Adriano Pinheiro, marido da Marja. A bolsa estourou agora. Sim. Está com dor. Sim… sim, nós já estamos indo.

Ele ouviu por alguns segundos.

— Certo. Entendido. Obrigado.

Ele desligou e olhou para mim.

— Ele está indo para o hospital agora. Disse que já vai preparar a equipe para a cesariana.

Meu coração disparou ainda mais.

Cesariana. Mesa de cirúrgica. Anestesia.

E o tumor.

O exame ainda não tinha saído o resultado. Eu levei a mão até a barriga.

— Adriano… — minha voz tremeu. — E se o tumor for maligno?

Ele congelou por um segundo.

— Não é hora de pensar nisso.

Outra contração me fez fechar os olhos.

— Eles vão abrir meu corpo… e se encontrarem algo pior? E se eu não acordar?

Adriano segurou meu rosto com firmeza.

— Você vai acordar.

Ele respirou profundamente.

— O médico sabe do tumor. Ele está preparado. Ele é um dos melhores cirurgiões que existem.

Eu balancei a cabeça, lágrimas já escorrendo.

— Eu não tive nem tempo de saber o que está crescendo dentro de mim… e agora vão me abrir para tirar o nosso filho.

Ele me abraçou com cuidado.

— O que está crescendo dentro de você é o nosso filho. E ele está bem. O resto… a gente enfrenta depois.

Outra contração me fez gemer alto.

— Vamos. — Ele se levantou. — Eu vou te ajudar a trocar de roupa.

Tudo parecia rápido demais.

Enquanto ele pegava a bolsa e os documentos, eu tentava respirar entre uma dor e outra.

— Está doendo muito? — ele perguntou, já colocando o tênis.

— Está… — sussurrei. — Mas não é só isso.

Ele parou.

— Sinto muito, Adriano — o médico falou.

Ele se aproximou, ajoelhando diante da cadeira.

— Eu vou estar aqui. O tempo todo. Até ver você de novo.

Eu toquei o rosto dele. E só consegui chorar.

Ele encostou a testa na minha.

— Eu te amo.

— Eu te amo mais.

Ele beijou o topo da minha cabeça e foi obrigado a soltar minha mão. A porta da sala de cirurgia se fechou.

O frio me atingiu primeiro. Depois a luz branca intensa. Fui transferida para a mesa. Enfermeiras falavam comigo, ajustavam aparelhos, monitoravam meus sinais.

Enquanto me preparavam, meus pensamentos ficaram barulhentos demais.

E se tudo desse errado? E se aquela mesa fosse o último lugar onde eu estaria consciente?

Meu Deus…

Fechei os olhos.

— Protege o meu filho — sussurrei. — Se algo tiver que acontecer, que seja comigo. Mas protege ele.

Senti lágrimas escorrerem pelas têmporas.

— Está tudo bem, Marja — disse uma enfermeira, achando que era só nervosismo comum.

Mas não era só isso. Era o peso do desconhecido. Era a incerteza de não saber se eu acordaria. Era o medo de não ver meu bebê crescer.

A anestesia começou a fazer efeito. Minhas pernas ficaram pesadas.

Meu coração batia tão forte que eu ouvia nos ouvidos. Eu olhei para o teto branco.

— Eu preciso acordar — murmurei para mim mesma.

— Eu preciso conhecer o meu bebê.

E naquele instante, entre o som dos instrumentos e o bip constante do monitor, eu fiz a única coisa que podia:

Eu orei

Orei pelo meu filho.

Orei por mim.

Eu queria viver.

Eu precisava viver.

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