Uma semana após o nosso casamento, eu acordei com um estalo dentro do corpo.
Não foi um barulho alto, mas foi definitivo. Como se algo tivesse cedido. Um segundo depois, senti o calor se espalhando entre minhas pernas, molhando o lençol. Fiquei imóvel, olhando para o teto escuro, tentando negar o que já sabia.
Então veio a dor.
Não era suave. Não era gradual. Era profunda, esmagadora, começando nas costas e apertando minha barriga inteira como um torno de ferro.
— Adriano… — minha voz saiu fraca.
Ele se mexeu ao meu lado.
A segunda contração veio mais forte.
Eu gemi alto.
— Adriano!
Ele acordou assustado, sentando na cama num salto.
— O que foi? Você está bem? — Ele acendeu o abajur e a luz amarela revelou meu rosto contorcido.
Eu engoli em seco.
— A bolsa estourou.
Ele olhou para o lençol molhado. Depois para mim. O rosto perdeu a cor.
— Mas... a cesariana estava marcada para a próxima semana.
Outra contração me atravessou e eu segurei o braço dele com força.
— Ele não quer esperar.
O pânico tomou conta dos olhos dele por alguns segundos. Mas então ele respirou fundo e se transformou na pessoa que ele sempre foi: decidido, prático.
— Tá. Tudo bem. A gente já sabia que isso podia acontecer. Eu vou ligar para o doutor.
Ele pegou o celular com mãos trêmulas.
— É madrugada… — murmurei.
— Ele disse que era para ligar a qualquer hora.
Eu ouvi o telefone chamando enquanto outra onda de dor começava a crescer dentro de mim.
— Atende… atende… — ele sussurrava.
Quando finalmente alguém respondeu, ele falou rápido demais.
— Doutor, é o Adriano Pinheiro, marido da Marja. A bolsa estourou agora. Sim. Está com dor. Sim… sim, nós já estamos indo.
Ele ouviu por alguns segundos.
— Certo. Entendido. Obrigado.
Ele desligou e olhou para mim.
— Ele está indo para o hospital agora. Disse que já vai preparar a equipe para a cesariana.
Meu coração disparou ainda mais.
Cesariana. Mesa de cirúrgica. Anestesia.
E o tumor.
O exame ainda não tinha saído o resultado. Eu levei a mão até a barriga.
— Adriano… — minha voz tremeu. — E se o tumor for maligno?
Ele congelou por um segundo.
— Não é hora de pensar nisso.
Outra contração me fez fechar os olhos.
— Eles vão abrir meu corpo… e se encontrarem algo pior? E se eu não acordar?
Adriano segurou meu rosto com firmeza.
— Você vai acordar.
Ele respirou profundamente.
— O médico sabe do tumor. Ele está preparado. Ele é um dos melhores cirurgiões que existem.
Eu balancei a cabeça, lágrimas já escorrendo.
— Eu não tive nem tempo de saber o que está crescendo dentro de mim… e agora vão me abrir para tirar o nosso filho.
Ele me abraçou com cuidado.
— O que está crescendo dentro de você é o nosso filho. E ele está bem. O resto… a gente enfrenta depois.
Outra contração me fez gemer alto.
— Vamos. — Ele se levantou. — Eu vou te ajudar a trocar de roupa.
Tudo parecia rápido demais.
Enquanto ele pegava a bolsa e os documentos, eu tentava respirar entre uma dor e outra.
— Está doendo muito? — ele perguntou, já colocando o tênis.
— Está… — sussurrei. — Mas não é só isso.
Ele parou.
— Sinto muito, Adriano — o médico falou.
Ele se aproximou, ajoelhando diante da cadeira.
— Eu vou estar aqui. O tempo todo. Até ver você de novo.
Eu toquei o rosto dele. E só consegui chorar.
Ele encostou a testa na minha.
— Eu te amo.
— Eu te amo mais.
Ele beijou o topo da minha cabeça e foi obrigado a soltar minha mão. A porta da sala de cirurgia se fechou.
O frio me atingiu primeiro. Depois a luz branca intensa. Fui transferida para a mesa. Enfermeiras falavam comigo, ajustavam aparelhos, monitoravam meus sinais.
Enquanto me preparavam, meus pensamentos ficaram barulhentos demais.
E se tudo desse errado? E se aquela mesa fosse o último lugar onde eu estaria consciente?
Meu Deus…
Fechei os olhos.
— Protege o meu filho — sussurrei. — Se algo tiver que acontecer, que seja comigo. Mas protege ele.
Senti lágrimas escorrerem pelas têmporas.
— Está tudo bem, Marja — disse uma enfermeira, achando que era só nervosismo comum.
Mas não era só isso. Era o peso do desconhecido. Era a incerteza de não saber se eu acordaria. Era o medo de não ver meu bebê crescer.
A anestesia começou a fazer efeito. Minhas pernas ficaram pesadas.
Meu coração batia tão forte que eu ouvia nos ouvidos. Eu olhei para o teto branco.
— Eu preciso acordar — murmurei para mim mesma.
— Eu preciso conhecer o meu bebê.
E naquele instante, entre o som dos instrumentos e o bip constante do monitor, eu fiz a única coisa que podia:
Eu orei
Orei pelo meu filho.
Orei por mim.
Eu queria viver.
Eu precisava viver.

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