Catarina e Leon-06
Naquela manhã, acordei bem cedo e fiquei rolando na cama com preguiça de levantar.
A visita de Marja e Adriano no dia anterior tinha deixado a casa mais alegre. Além disso, era impossível não sorrir vendo os dois juntos. Eles se olhavam como duas pessoas que ainda estavam apaixonadas apesar dos anos, das dificuldades e agora da chegada de mais um bebê.
E ali na maciez daquele colchão gostoso, enrolada nos lençóis, ganhei um beijo de bom dia enquanto eu me espreguiçava. Olhei para Leon que já estava sentado na cama e falei:
— Você é o homem da minha vida, sabia?
— E você é a rainha do meu lar.
Fiz uma careta de desagrado.
— O que foi? — ele perguntou sério.
— Não gostei disso: “ rainha do meu lar” soa doméstico demais, como se eu fosse apenas uma dona de casa.
— Desculpa, meu amor. Acho que não sou muito romântico.
— Romântico você é — dei um sorriso largo. — Talvez você não seja muito bom com as palavras. Mas vem cá que eu te ensino.
Puxei ele pela camisa e o beijei intensamente.
— Essa é a minha garota. — Leon disse enquanto me erguia da cama e me carregava até o banheiro.
Naquela manhã tomamos um banho delicioso, lavamos o cabelo um do outro e fizemos amor no chuveiro.
[...]
Mais tarde, enquanto tomávamos café na mesa da cozinha, Leon falou:
— Tenho uma surpresa para você hoje — disse.
— Uma surpresa?
— Convidei Marja e Adriano para almoçar conosco.
— Por que não me avisou antes? Vou pedir para Nani preparar uma comida diferente hoje.
—Não se preocupe. Vamos almoçar fora. Os quatro.
— E para onde vamos?
Leon apoiou a xícara sobre a mesa.
— Vamos para a inauguração do restaurante do Pedro.
Franzi a testa.
— Quem é Pedro?
Leon soltou uma pequena risada.
— Pedro é filho de Sebastião de Castro.
— Ah... a família Castro. Quem não conhece? Principalmente pela fama ruim de “Don Sebastião de Castro”.
Falei com ironia. Porque Sebastião de Castro era um fazendeiro português muito rico e influente na região. Era o único que ainda insista em tratar os empregados como se estivesse no tempo da escravidão. Alguns ficavam por medo. Outros iam procurar emprego nas fazendas vizinhas. Eu jamais conseguiria entender pessoas que acreditavam que a riqueza lhes dava o direito de humilhar os outros.
— Agora sei quem é Pedro, mas não lembro direito dele. Ele é igual ao pai?
— Não. Pedro é um bom rapaz. Ele é totalmente diferente do pai.
Leon respondeu imediatamente. Depois tomou um gole do café e falou:
— Dizem até que recentemente Pedro saiu de casa porque ele e o pai já não se entendiam há muito tempo. Tudo começou depois que Sebastião proibiu o namoro dele com uma moça nativa do povoado, depois de humilhá-la.
— E o que aconteceu? — perguntei curiosa.
— A garota foi embora daqui. Mas Pedro nunca perdoou o pai pelo que ele fez e agora faz de tudo para manter distância.
— Esse Pedro já ganhou o meu respeito. Se fosse ele faria a mesma coisa.
— Como se eu já não soubesse que você é assim, Catarina.
— Assim como?
— Catarina, você é a pessoa mais rebelde, autoritária e intensa que eu conheço.
Fingi indignação e falei:
— Nunca diga isso na frente da Olivia.
Porque eu era tudo aquilo e muito mais. Eu sabia disso. Era o meu jeito, meu temperamento e eu não sabia ser diferente. Mas tinha que ser um exemplo de mãe para minha filha.
Leon sorriu.
— Eu sei.
— Então pare de agir como se eu estivesse doente.
— Não estou fazendo isso.
— Está sim.
Sorri observando-os. Era impossível não achar aquilo adorável. Leon também observou e falou no meu ouvido:
— Acho que eles nunca vão parar de ser assim.
— Acho que não — concordei com meu marido.
Quanto mais nos aproximávamos do restaurante, mais impressionante ele parecia. Quando alcançamos a entrada, parei por um momento. As enormes portas automáticas de vidro refletiam o céu e o rio atrás de nós. Pareciam as portas de um hotel de luxo. Enquanto observávamos tudo um funcionário elegantemente vestido nos cumprimentou.
— Sejam bem-vindos.
As portas deslizaram silenciosamente para os lados e então entramos. Meu queixo quase caiu. O interior era ainda mais bonito do que eu imaginava. O teto era alto. As mesas estavam distribuídas de forma elegante pelo salão. Madeira clara, vidro e detalhes em pedra se misturavam perfeitamente. Tudo era moderno e luxuoso, mas ao mesmo tempo confortável.
A verdadeira estrela do lugar, porém, era a vista. Uma enorme parede de vidro ocupava praticamente toda a extensão voltada para o rio. Dali era possível observar a água correndo lá embaixo, brilhando sob o sol da tarde. Parecia uma pintura.
Por alguns segundos fiquei apenas admirando.
— Impressionante, não é? — perguntou Leon.
— Muito mais do que impressionante.
— Eu sabia que você ia gostar.
Um funcionário aproximou-se para nos acompanhar.
— Mesa para quatro?
— Sim — respondeu Leon.
Seguimos pelo salão e passamos por diversos convidados. Alguns cumprimentaram Leon, outros acenaram para Adriano. Por fim chegamos a uma mesa próxima à janela. Exatamente de frente para o rio.
A vista era perfeita. As águas se estendiam diante de nós como um espelho cintilante. Ao longe, o sol refletia sobre a superfície criando milhares de pontos brilhantes.
Leon puxou uma cadeira para mim. E antes mesmo de me sentar, tive a sensação de que aquele almoço seria muito mais interessante do que eu imaginava.

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