Catarina e Leon-07
Eu já estava satisfeita quando o garçom trouxe mais uma travessa fumegante para a mesa.
O restaurante estava cheio e havia um clima de celebração no ar. Pessoas conversavam animadamente, garçons cruzavam o ambiente carregando bandejas e, ao fundo, uma música suave completava a atmosfera agradável. Leon estava ao meu lado e contava histórias engraçadas sobre a fazenda, casos acontecidos no dia a dia. Adriano ria e também contava as histórias dele.
— Acho que vou sair daqui rolando — comentou Marja depois de provar mais um pedaço da sobremesa.
Adriano sorriu.
— Você fala isso em todo almoço.
— Porque em todo almoço você me incentiva a comer muito.
— Eu apenas apoio suas decisões.
— Inclusive as erradas.
— Principalmente as erradas.
Todos rimos.
Eu me apoiei na cadeira e observei o movimento do restaurante.
— Preciso admitir uma coisa — falei.
Leon ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Seu amigo sabe o que está fazendo.
— Eu avisei. Pedro é perfeccionista.
— A comida está maravilhosa — Marja falou entre uma garfada e outra. — E tudo aqui é lindo!
Leon tomou um gole de água e olhou para frente. Enquanto eu observava o salão, a porta principal se abriu. Algumas pessoas próximas olharam naquela direção e um homem entrou. Era alto, na faixa entre 28 e 30 anos, loiro, com os cabelos cuidadosamente cortados. Os olhos chamavam atenção imediatamente: uma tonalidade clara entre âmbar e verde. Ele usava uma calça social escura e uma camisa clara de mangas três quartos. E parecia confortável naquele ambiente cheio.
— É ele — comentou Leon.
— Pedro? — perguntei.
— Sim.
Pedro caminhou pelo salão cumprimentando os clientes. Parava em algumas mesas, apertava mãos, recebia abraços. Escutava comentários, agradecia. E depois de alguns minutos, seus olhos encontraram nossa mesa. Ele sorriu imediatamente e veio em nossa direção.
— Aí estão vocês.
Leon se levantou primeiro.
Os dois trocaram um aperto de mão firme.
— Parabéns, Pedro.
— Obrigado.
Logo depois vieram os abraços.
Adriano também se levantou para cumprimentá-lo.
— Ficou incrível — disse meu irmão.
— Ainda estou esperando alguém apontar os defeitos.
Adriano riu.
Então os olhos de Pedro vieram para mim. Por um instante ele pareceu me observar com atenção. Como alguém tentando encaixar uma lembrança antiga.
— Catarina? — a voz dele soou bem familiar.
Sorri.
— Sim.
— Não lembra de mim? Da escola?
Naquele momento eu lembrei dele. Pedro estava muito diferente. Ele havia se transformado em um homem muito lindo e sexy.
— Sendo sincera lembro de um menino nerd que usava óculos. E acho que ele era você.
Nós dois rimos e Pedro disse:
— Eu agora uso lentes. Faz tempo.
— Bastante tempo. Éramos adolescentes. Depois você sumiu.
— Fui estudar no exterior.
— Eu soube. Nova Iorque, né?
— Que bom te ver novamente. — Pedro falou — Nunca esqueci quando Ricardo Bandeira te deu um beijo e você encheu ele de porrada.
Todos riram. E Leon falou:
— Viu? Essa é minha garota.
Mais risadas surgiram.
— O mundo é pequeno — comentei.
— Pequeno demais.
Pedro olhou para Leon.
— E vocês estão casados há quanto tempo?
— Pouco mais de três anos.
— E temos uma filha, a Olivia — comentei.
— Você tem filhos, Pedro? — Marja perguntou.
Pedro sorriu. Mas foi um sorriso diferente. Algo quase melancólico.
— Não.
— Ainda não — Adriano observou.
Então apertou novamente a mão de Leon e de Adriano.
— Aproveitem o almoço.
— Parabéns mais uma vez — disse Leon.
— Obrigado.
Pedro caminhou até uma mesa e passou a conversar com outros clientes.
— Gostei dele — comentou Marja.
— Sempre foi um bom rapaz — disse Leon.
— Graças a Deus não puxou o caráter do pai. — Adriano comentou.
A conversa mudou. Agora só se falava sobre comida naquela mesa. Eu continuei observando ao redor e meu olhar acabou encontrando Leon. Ele estava me observando com aquele sorriso tranquilo que eu conhecia tão bem.
— O que foi? — perguntei.
— Nada.
— Está sorrindo.
— Não posso sorrir para minha esposa?
— Pode.
— Então é isso.
Revirei os olhos, mas foi de pura felicidade. Uma felicidade simples. Daquelas que surgem em momentos comuns. Segurei a mão de Leon por baixo da mesa. Ele entrelaçou os dedos nos meus. Enquanto as conversas continuavam e o restaurante permanecia cheio de vida ao nosso redor, encostei a cabeça levemente em seu ombro e fiquei ali enquanto os garçons recolhiam a louça da mesa. Sentia o calor dele através do tecido da camisa e respirava o perfume familiar que eu conhecia tão bem.
Estava de olhos fechados naquele instante por isso o susto foi maior quando ouvi a vibração do celular dele. Foi um som discreto, mas suficiente para interromper aquele momento. Leon tirou o aparelho do bolso e eu vi o nome da ex-esposa. Imediatamente todo o bem-estar que eu sentia desapareceu. Leon soltou minha mão e atendeu.
— Carmen.
Em seguida se levantou.
— Com licença.
E foi em direção à saída do restaurante. Como se precisasse de privacidade. Como se a conversa não pudesse acontecer diante de nós. Aquilo me atingiu pior do que a própria ligação. Eu fiquei ali vendo ele se afastar, passando entre as mesas e desaparecendo pela porta de vidro.
Ouvi a voz de Marja, naquele momento:
— Você está bem, Catarina?
Forcei um sorriso.
— Claro.
Mas era mentira. Uma mentira péssima, porque eu não estava bem. Marja suspirou. Meu irmão ficou alguns segundos em silêncio. Depois falou com cuidado:
— Talvez seja alguma coisa importante.
Pela janela do restaurante consegui ver Leon do lado de fora. Ele caminhava devagar enquanto falava, com uma mão no bolso e a outra segurando o telefone. Marja falava algo comigo, acho que para me distrair, mas eu não estava ouvindo. E quando olhei novamente para a porta, Leon estava voltando.
Ele guardou o celular no bolso, atravessou o salão e retornou para a mesa. Em seguida puxou a cadeira, sentou-se ao meu lado e voltou a conversar. Mas o clima entre nós já não era mais o mesmo.

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