Naquela noite eu achei que íamos nos deitar e ter uma noite de paz, era só o que precisávamos. Mas aquela palavra estava sendo riscada da nossa vida, pouco a pouco.
Quanah estava dormindo, profundamente ao me lado, mas eu estava desperta, como se tivesse dormido o dia todo e não o contrário.
Pela primeira vez na vida eu não me sentia cansada nenhum pouco, por isso decidi levantar da cama e ir atrás de alguma coisa para tomar, um leite quente talvez ajudasse, costumava fazer efeito quando eu era menor.
Me esgueirei para fora da cama e observei o corredor vazio e silencioso, aquela altura da madrugada, depois de toda a luta do dia, não me surpreendia que todos estivessem dormindo.
— Bridget. — uma voz sussurrou me chamando quando sai do elevador, mas quando olhei em volta não tinha nada ali.
— Eu estou ficando maluca, só pode!
Continuei meu caminho, focada em chegar na cozinha, mas a voz voltou a sussurrar meu nome, agora cantarolando.
— Bridget, Bridget... — era uma voz conhecida, mas que ao mesmo tempo eu não conseguia decifrar de quem era.
— Quem está aí? — questionei me virando em busca de algo, mas não havia ninguém no corredor.
Com um estalar de dedos todo o andar de baixo se iluminou, não me importava se ia chamar atenção de quem estava de guarda, eu queria descobrir quem estava cantarolando meu nome daquele jeito sombrio e porque não se mostrava de uma vez.
Entrei na cozinha em alerta, Hades podia ter mandado alguma criatura do submundo atrás de mim.
— Não acredito que não reconhece mais a voz de sua mãe. — me virei para a porta quando a voz falou e o choque me tomou.
Parada ali na soleira da portava estava minha mãe, ou ao menos parecia com ela, mas estava brilhando e flutuando, quase como um fantasma de filmes antigos.
— Mamãe? — parte de mim não acreditava que ela estivesse ali na minha frente, mesmo que fosse talvez um fantasma.
— Faz um longo tempo, não é mesmo minha filha? Olha só pra você, tão crescida e forte! — ela me rodeou e eu só conseguia piscar, admirada com sua presença ali. — E esse poder, minha nossa! Você é um achado filha, a bruxa mais forte que o coven já ouviu falar.
Eu estava querendo pular de alegria, eu não a via há tanto tempo, desde que ela tinha morrido, nunca pensei que fosse voltar a vê-la, mas ali está a ela! Franzi o cenho, quando meu cérebro começou a fazer as ligações.
Como ela poderia saber de tudo o que estava acontecendo comigo? Porque não tinha aparecido antes?
— Como isso é possível? Como você está aqui?
— Eu sou só uma aparição, estou falando com você dos mundos dos mortos, assim como nossa ancestral falou com você. — sua voz parecia mais pacífica do que eu me lembrava e eu tinha certeza que faltava algo ali, mas não me vinha a mente o que podia ser.
— Se podia fazer isso porque não fez antes? Porque não me procurou? Eu senti tanto a sua falta, fiquei tão sozinha todos os esses anos.
O sorriso doce cresceu em seu rosto, mas algo destoava, mamãe não gostava de sorrisos contidos. "Ou você sorri com verdade ou é melhor não fazer!", era o que sempre dizia.
O que tinha acontecido com ela?
— Tantas perguntas, eu não pude aparecer antes, não sou eu quem faço as regras. Estou aqui agora porque me mandaram te dar um aviso. — ela me analisou mais um pouco, então focou os olhos nos meus. — Não deve confiar no lobisomem, ele está planejando tirar seu filho de você...
— Quem te mandou dizer uma coisa dessas? Quanah nunca faria algo assim. — encarei melhor seu rosto e afirmei com cada fibra do meu corpo — Ele me ama!
— Ele não a ama, está apenas te usando e assim que o bebê nascer você será jogada na rua! — sua voz se alterou, por um minuto não parecendo ser da mesma pessoa, mas voltou ao normal rapidamente. — Vá enquanto tem tempo, procure por Agnes e Blanca, elas vão te ajudar a sair daqui e se manter segura.
Havia tantas coisas erradas naquela fala, mamãe tinha parado de falar com as duas, dizia que era um mal entendido que a tinha afastado das amigas de longa data.

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