Ticiano sorria, como se ver a carranca de Vitório fosse a coisa mais interessante nesse momento.
- É evidente que vocês estão tirando o atraso cara. Já se deu conta que não aparece na academia de combate há um mês? – Ticiano tirou os óculos e os observou, mantendo o sorriso irônico. – Encontrou algo melhor para fazer que o tatame e as fodas sinistras que você assistia na Masmorra Diè.
Vitório se levantou e caminhou para o bar. Era impressionante como esse maldito moleque gostava de provoca-lo. Enquanto com Ícaro e Alberto ele era certinho e sério até demais, com Vitório, Ticiano tinha prazer em ser um filho da puta de língua solta.
Talvez porque ele fosse o único que soubesse de tudo, e portanto fosse a única pessoa que pudesse conversar abertamente, sem reservas. De certo modo, a irreverencia de seu amigo, era um ponto que deixava Vitório relaxado. Como se pudesse dividir parte da carga que carregava, com alguém que não o julgaria.
- Preciso de uma profissional renomada em neuropsicoterapia, Ticiano. – ele afirmou pensativo.
- Por que isso agora? – perguntou seu amigo, aceitando o borbom que foi oferecido. – Pretende interferir até no Instituto agora? Está mais possessivo que o normal, soube que contratou mais um segurança à paisana para a sua esposa.
- Alguém está tentando se aproximar dela. Um doutorzinho de dentes arreganhados, que está louco para conhecer o meu cruzado de direita. – disse praguejando, enquanto bebia. – Mas não posso privar as crianças do tipo de trabalho que ele está desenvolvendo, além disso, eu pensei que seria uma boa forma de tentar mais uma vez convencer a Lucila a aceitar um rastreio alternativo para sua condição.
- Fala do mutismo traumático? – Ticiano perguntou, virando mais um gole de seu copo, e em seguida verificando o celular.
- Sim. Ela foi assistida por diversos terapeutas depois da tragédia com o Felipe. Parou de falar quando perdeu o irmão, então é óbvio que a situação do trauma está relacionada àquele dia fatídico. Todos os profissionais que a atenderam, atestaram que houve uma cisão mental irreversível quando o irmão dela morreu. Mas há ocasiões.... – Vitório ponderou sobre o que dizer, não poderia revelar que ela tocava piano de uma forma diferente, como se realmente estivesse falando, confessando seus sentimentos mais profundos. - ...em que percebo que Lucila ainda sofre com o passado. Estou certo que se ela não estivesse presa a essa dor, ela poderia fazer progresso e voltar a falar.
Ticiano ficou em silêncio por algum tempo, pensativo.
- Acha que o tal doutorzinho poderia ajudá-la, mas você não que quer seja ele a fazer isso.
- Não. – admitiu. – Sei exatamente o que ele pretende com isso. – Vitório abandonou o copo de cristal sobre a mesa, quando o pingente da corrente de ouro branco vibrou intensamente.
- Mas quer outro profissional para a Lucila tentar uma abordagem terapêutica, sem depender do doutor.
- Exato. Até mesmo porque, eu só preciso saber o que ele sabe. Depois posso descartá-lo. Mas até lá, esse desgraçado precisa conhecer o seu lugar. Portanto, deixe a segurança avisada, se ele tocar na Lucila publicamente, podem usar a força necessária para “contê-lo” sem incapacitar.
- Vou pesquisar alguém de renome nessa especialização, que pode dar a sua esposa uma nova abordagem. – Ticiano se levantou. – Preciso ir, os japoneses chegaram ao prédio, e o Ícaro me pediu que preparasse a abertura da reunião. Não se atrase.
- Eu já vou. – respondeu endireitando sua camisa e se levantando.
- Por que você acha que o doutor vai tentar algo com a sua esposa? Acha que ele seria capaz de colocar sua posição no Instituto em jogo?
- Porque algo me diz que não vai demorar para aquele inseto tentar algo. E quando ele fizer, ele vai saber que a Lucila é uma mulher casada, e que pertence a mim.

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