Ticiano
As luzes da cidade já começavam a brilhar, o céu escurecia gradativamente, engolindo o som do tráfego pesado das avenidas movimentadas.
Sentado atrás de sua mesa, ele se voltou para os documentos que terminava de redigir. A porta se abriu, e ele encontrou Ícaro com aquela expressão compenetrada e preocupada.
Já tinha visto aquilo tantas vezes, que já a reconhecia imediatamente assim que a via.
Era a mesma que denunciava o laço fraterno forte entre os Darius, o mesmo que provava o quanto ele se preocupava, principalmente com Vitório.
Ser amigo dos três, era uma honra a qual se orgulhava muito. Como Ícaro costumava dizer, ele era considerado o quarto filho, o caçula desse clã.
- Pensei que ia para casa. – disse, quebrando o silêncio. – O recital de balé da Maya é hoje a noite.
- Eu sei, mas ainda tenho alguns minutos. – ele disse caminhando silenciosamente até a poltrona de couro, e se sentando com um suspiro cansado.
- Vamos lá, pergunte. Sr. – ele disse seriamente, mas sabendo que Ícaro iria mandá-lo a merda, por causa da formalidade.
- Não fode. – ele respondeu previsivelmente. – Como ele está?
A pergunta era clara, e não era a primeira vez que a ouvia. Durante anos Vitório fazia o testa de ferro e Ícaro se preocupava com o que estava acontecendo com o irmão mais velho que não compartilhava praticamente nada de sua vida privada com ele. Essa ruptura tinha um nome diferente para ambos, ou não.
Na verdade, Ticiano se perguntava diversas vezes nos últimos tempos, quanto Ícaro sabia de toda aquela merda em que Vitório estava sufocando há muito tempo. No entanto, a posição em que se encontrava, não permitia que ele perguntasse nada.
- Está se dando bem a esposa, e ao mesmo tempo ficou mais possessivo que nunca. Fica preocupado com ela o tempo todo.
Ícaro sorriu, coçando a barba suavemente.
- Eu demorei para perceber que a Lucila era o coração dele. Pensei que ele se casaria com ela só para fazer a vontade do nosso pai. Tentei de todas as formas fazer nosso pai mudar de ideia, eu temia que ele não soubesse apreciá-la como mulher. Afinal, ele era muito experiente e a via como uma criança mimada.
- Quando percebeu que ele a amava?
- No dia do casamento deles. – Ícaro deu uma olhada para o relógio. – A gente tinha saído no braço alguns dias antes por causa dela, mas eu achei que era só tentativa de marcar o território, ele não gostava de dividir a atenção dela comigo, e éramos muito amigos. Mas no dia do casamento, quando ele viu ela caminhar até onde estava, o olhar dele mudou, percebi que para ele não havia mais ninguém ali, só ela. Era como se ele estivesse abrindo o próprio peito diante daquele altar no penhasco.
- A Lucila se saiu muito bem em domá-lo. – Ticiano comenta, finalizando o relatório. – Ele nunca teve intenção real de deixá-la.
Ainda se lembrava da expressão de choque e ira absurda de Ícaro quando ele pediu o exame de DNA do filho de Astrid, que ela estava mantendo no Rio como se fosse filho de Fernando Vidal. Ícaro descobriu que não era o pai do menino, mas o exame revelou algo que ele não esperava.
O grau de parentesco entre ele e o filho de Astrid. O garoto, que vivia como filho de Fernando, compartilhava vinte e cinco por cento do material genético de Ícaro Darius. Provando que ele era tio em primeiro grau do menino.
Ícaro soube que Vitório era o pai do menino sozinho, e naquele mesmo momento em que teve a notícia. A imagem de seu melhor amigo ligando os pontos, foi .... visceral. E mesmo sabendo toda a verdade, Ticiano estava determinado a ficar em silêncio, e só interferir se caso Ícaro resolvesse fazer Vitório pagar pela suposta traição.
Mas Ícaro não o fez. Ele voltou para São Paulo e o abismo entre os dois irmãos que já existia, só se ampliou.
Com o tempo, Ícaro percebeu que Ticiano estava envolvido nos segredos de Vitório, e deixou de pedir a ele informações a respeito do irmão e Astrid, e tudo o que aconteceu entre eles. Ele deduziu que a ex-mulher seduziu seu irmão mais velho, somente para feri-lo ainda mais.
- Nunca pensou em contar a ele, sobre o garoto. – perguntou Ticiano.
- Ele não queria que eu soubesse de nada. – Ícaro respondeu. – Então acho melhor que continue pensando assim. Você mesmo me disse uma vez, que a melhor decisão em meio a esse caos, era deixar as coisas fluírem naturalmente. É o que eu estou fazendo.
- Um dia, essa conversa vai ter que acontecer.
- Mas não agora que ele descobriu que tem um filho, e precisa recuperar o tempo que perdeu…

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