O braço de Vitório enlaçava sua cintura, e seus dedos grandes, desenhavam suas vértebras, enquanto ela tentava se concentrar no que Amélia estava dizendo.
- Espero que a escola tome uma providência séria sobre isso, para que não se repita. – Mel continuou o assunto da escola, que começou logo após o jantar na casa dela.
“Ele disse que a política da escola é clara sobre esse tipo de coisa. Mas isso não me deixa aliviada, o Olavo já passou por muita coisa.”
Os três olharam para o menino que estava sentado no tapete da sala tentando fazer Maya parar para brincar de um jogo de tabuleiro, mas ela queria brincar de cabeleireiro, e mexia com o cabelo do garoto o tempo todo. Brinquedos estavam espalhados pelo chão e sofá, e o filho mais novo do casal anfitrião, estava dormindo nos braços de Ícaro, que em meio aquele caos, assistia a um jogo de basquete da NBA, pela tv.
Amélia os serviu novamente com o vinho e disse:
- Mas ele tem vocês agora, e tenho certeza que vai superar tudo isso. – Mel olha para o braço de Vitório na cintura de Lucila, e sorri zombando da pocessividade não disfarçada. – Você vai ter que soltar ela por alguns minutos. Quero mostrar a Lucy um projeto que estou desenvolvendo para o próximo centro de inclusão social que a Acrópole irá construir.
- Não vai querer a minha opinião tambem? – Vitório tentou, enganchando uma mecha de cabelos negros de Lucila, atrás de sua orelha delicada que ostentava um diamante em forma de lágrima.
- Não. – Amélia entrelaçou o braço no de Lucila. – E também, quero discutir algumas coisas sobre nossa viagem para a fazenda amanhã.
Lucila olhou para Vitório buscando respostas, mas ele só deu aquela piscadela marota e se afastou em direção ao sofá. Seus olhos o seguiram, se deliciando com cada detalhe do caminhar imponente, o jeito que o jeans se agarrava a suas coxas grossas, os ombros largos que seus dedos conheciam tão bem.
- Pare de babar, amiga. – Mel caçoou, a cutucando nas costelas.
Envergonhada e se sentindo como se fosse pega cometendo um pecado, Lucila desviou os olhos de seu marido, que havia se sentado confortavelmente com o irmão, para assistir ao jogo.
“Você adora me deixar constrangida, Amélia Darius. É impressionante.”
Mel sorriu, e a puxou pela mão, em direção ao estúdio que ela usava para trabalhar, bem ao lado do escritório do marido. Ambos tinham uma sintonia e uma intimidade invejável. Lucila se perguntou se um dia ela seria assim, desinibida como Amélia, que não se importava em deixar claro seus desejos e emoções para seu parceiro.
Por hora, tudo o que sabia era que com Vitório, ela sentia que partilhava mais que seus sentimentos, ela dividia sua alma com esse homem. Só desejava ser mais confiante para tomar atitudes que poderia ser prazerosa para ambos, mas a sombra da rejeição ainda pairava sobre ela. Como uma corrente que segurava seus desejos constantemente.
Havia uma porta preta no final do corredor, e ela sabia que aquele quarto era algo especial para Amélia e Ícaro, pois ambos se referiam a ele com sorrisos cheios de significados.
Era esse tipo de coisa que também queria com Vitório. Partilhar algo profundo entre eles, algo que os fizessem assim firmes e inabaláveis como casal. Não sabia o que continha no quarto de porta preta, mas imaginava que fosse algo interessante que eles faziam juntos.
Quando Amélia fechou a porta do estúdio, Lucila permaneceu olhando para ela. E tomou coragem de perguntar o que tanto queria saber.
“O que vocês fazem naquela sala de porta preta?”
Amélia se virou, surpresa.
- Nunca pensei que fosse te ouvir perguntar isso. – ela caminhou tranquilamente até uma mesa branca inclinada, onde várias plantas e desenhos estavam espalhadas.
Um sorriso suave surgiu no rosto de sua amiga.
Ela não conseguia dizer para outra pessoa, que o sexo entre eles era vibrante e intenso. A moralidade e os costumes em que foi criada, a impedia de tal coisa.
- Pense a respeito, e não se pressione a fazer nada que não esteja confortável. Acho que vocês ainda vão se descobrir mutuamente, estão começando agora. – Amélia consultou o celular. – Agora me diga o que acha do complexo recreativo, para que a gente decida o que levar para a fazenda no feriadão amanhã.
Lucila olhou para o desenho primoroso, e então percebeu o que estava deixando escapar.
“Que fazenda? Não estou sabendo que vamos viajar.”
Amélia sorriu de novo.
- Acho que o Vitório não teve tempo de te contar. Eles estão planejando acampar com as crianças na fazenda. Só a Sam e o Alberto que ficaram de fora, ele foi para Madri a trabalho e levou a minha prima e a Otávia para conhecer o lugar.
Seus pensamentos dispararam. Ela sabia que os irmãos tinham uma grande fazenda de gado de corte no centro oeste do país, mas desde que estava casada com Vitório, ele nunca foi lá, e também não a convidou para conhecer. Por que agora?
- Para de ficar procurando motivos, amiga. Foi o Ícaro quem propôs a viagem. Ele está doido para mostrar tudo as crianças. – Amélia a abraçou suavemente. – E também é uma mudança de ares que pode....despertar certos desejos e instintos em você. – ela provocou.
Vendo o rosto de Lucila vermelho feito um tomate, Amélia riu, festeira, e deu um tapinha reconfortante em sua mão.
- Você tem muito o que aprender, princesa Lucy.

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