O momento incrível durou pouco demais. Porque em seguida o toque estridente de seu celular, os interrompeu, e como era o som que selecionou para a segurança do condomínio, ele não pode ignorar.
Lucila se afastou, e trouxe Olavo para o próprio colo, limpando o rosto de seu filho que estava marcado pelas lágrimas.
- Eu tenho que atender. Mas já volto, para terminar com as suas malas, tudo bem...filho? – Vitório disse, num tom afetuoso, que fez Olavo abrir o sorriso mais amplo e mais sincero que eles já tinham visto.
Ele acenou, feliz e com uma piscadela, Vitório saiu do quarto para atender a ligação.
Assim que chegou às escadas, o som da voz do chefe de segurança do condomínio se propagou pelo auto falante do celular.
- O que foi Alfredo? Que diabos aconteceu a essa hora para estarem me ligando?
O momento que interromperam nunca mais voltaria a acontecer. Essa foi a primeira vez que seu filho o chamou de pai.
- Senhor Darius, me desculpe, mas o senhor pediu que os seus seguranças ficassem na torre de entrada monitorando tudo enquanto não fossem necessários. E um deles interceptou uma entrega destinada ao senhor.
- Me deixe falar com ele.
- Ele está lá embaixo, senhor, tentando obter informações do entregador.
- E o que é o pacote interceptado?
Vitório já estava calçando o tênis para sair enquanto falava. Os seguranças que eram responsáveis por sua esposa eram bem treinados, e não teriam barrado uma entrega por nada.
- É melhor que o senhor venha conferir. Porque sinceramente não sabemos o que fazer com isso.
- Não tome nenhuma providência ainda. Já estou a caminho.
Ao desligar o celular e sair para a rua bem iluminada, enviou uma mensagem para Lucila dizendo que sua presença foi necessária na portaria, para que ela não ficasse preocupada. Nem tinha guardado o celular no bolso da bermuda esportiva que usava, quando várias mensagens e notificações de email chegaram. Todos de Roberto.
Ao abrir a primeira, Vitório passou de uma caminhada firme para uma corrida veloz em direção a torre de segurança do condomínio.
A mensagem era clara e direta. “Houve uma compra suspeita para entregar no seu endereço. E o nome do comprador foi deixado em evidência propositalmente. Astrid Kutisk.”
- Porra. – ele xingou, irritado.
Aquela piranha não perdeu tempo.
Avistando a torre de segurança, Vitório sentiu como se algo fúnebre dominasse o ar. Seus sentidos ficaram eriçados, e sua mente ficou em estado de alerta ainda maior. O cheiro de morte dominava o ar noturno, e ficava cada vez mais intenso à medida que se aproximava do pequeno prédio iluminado da entrada do condomínio.
Antes de chegar ao portão lateral, ele já sentiu aquele cheiro forte de morte praticamente sufoca-lo. A sensação de estar em um funeral o dominou, e a memória traiçoeira o levou ao dia que perdeu seu pai, e ao enterro que se tornou mais um pesadelo por causa daquela psicopata do caralho.
Vitório bateu na porta de ferro destinada aos moradores, tentando afastar aquelas malditas lembranças. Wagner, um de seus seguranças particulares, abriu para ele. Ao entrar no salão do piso térreo, a náusea o nocauteou cruelmente.
O nome ali repetido dez vezes, como um ritual macabro, gravava nas coroas o destino que Astrid traria para sua inimiga. Vitório sentiu o suor frio brotar na nuca, mas seus punhos apenas se cerraram. Aquilo não era um jogo. Era uma guerra declarada.
E Astrid, com sua mente maleficamente distorcida e seu instinto predador, acabava de mostrar que não queria só vingança, queria sangue, dor e desespero.
Wagner se aproximou, e sem uma palavra, entregou a ele um cartão preto. Vitório o abriu, sentindo seus dedos automaticamente se fecharem como se pudesse esmagar a traqueia daquela mulher.
O cartão evidenciava tudo o que ele temeu.
“Olá querido.
Não imagina o prazer que sinto em saber que está com o NOSSO FILHO. Espero que o meu presente seja do seu agrado, afinal, você sempre foi um homem que adora brincar com a morte.
Com saudades...
A. K.”
Esse sempre foi o plano dela. Usar Olavo para destruí-lo, para acabar com sua vida. Astrid havia planejado cada passo friamente, e ele mais uma vez tinha a vida das pessoas que mais amava neste mundo, ameaçada pela loucura dessa mulher que o arruinou.
Vitório correu para fora, o cheiro de morte era intragável, e o cartão estava carregado do perfume insuportável daquela vadia. Depois de esvaziar seu estômago, ele voltou para dentro, com passos firmes e decididos.
- Descartem todo esse lixo. A partir de hoje, toda correspondência e entregas devem ser monitoradas e conferidas antes de chegar a minha casa. – acenou para Wagner. – Você vai abrir tudo, nada deve passar, e reporta diretamente a mim. Fez um bom trabalho, mas essa porra que está vendo é só o começo.

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