Ícaro permaneceu impassível enquanto o escutou.
Quando terminou de falar, sem qualquer resquício de auto comiseração, ele verificou o celular, preocupado com sua esposa que estava sozinha no quarto.
Relatou ao seu irmão o que houve de verdade em Amsterdam, mas ainda restavam coisas a serem esclarecidas.
- Vitório... – Ícaro chamou, fazendo seus olhares se encontrarem. – Não acha que já guardou segredos por tempo demais? Você pode contar para mim, eu sei que há muito mais. – disse ele firme e seguro. – Você tem uma família agora, assim como eu, e protegê-los é primordial. Mas continuar mantendo essa merda sobre a Astrid só para você, pode se tornar um ácido corrosivo que vai destruir tudo o que você está tentando construir.
- Se está me dizendo isso, é porque já sabe de tudo. – Vitório cruzou os braços na altura do peito. De que adiantaria falar sobre sua estupidez do passado, se seu irmão já sabia sobre o quanto estava mergulhado nesse inferno até os ossos. – Não vejo motivos pra revirar isso se já está ciente.
- Não vou negar que descobri algumas coisas. – Ícaro olhou para Tay, e acenou para ele que descia de triciclo em direção a casa grande. Pulando a cerca com facilidade, ele se juntou a Vitório. – Mas há lacunas que só você pode esclarecer. É tão difícil assim você confiar no seu irmão?
- Sabe que não é questão de confiança, porra. Confio minha vida a você. Pare com esse caralho. – respondeu, sentindo seu peito se inflar dolorosamente. – Não há muito o que falar sobre aquela louca desgraçada. Eu a conheci há muitos anos, quando estava voltando para o Brasil. Tivemos um relacionamento, e eu fui estupido o suficiente para me deixar levar por suas palavras e pela porra dos meus sentimentos imaturos.
- Então... você a conheceu muito antes do que eu imaginei. – Ícaro ressaltou. – Devia ter me contado quando eu apresentei a família.
- Era o meu casamento com a Lucila! – Vitório se virou irritado, a lembrança daquele momento ainda ardia dentro dele. O ódio frio e o rancor da presença daquela vadia no dia que se tornou o mais importante de sua vida. – Que caralho você queria que eu fizesse?! Te chamasse e te dissesse que aquela puta do teu lado era minha ex-noiva psicótica que quase nos levou a ruína?!
- Você tem razão... – concluiu Ícaro, o encarando.
- Eu te disse que deveria terminar com ela! Eu te falei que ela era uma vadia, que não deveria se casar com ela!!!
Vitório mal podia conter a raiva cega que o dominava. Se virou de costas para a arena e socou a cerca de madeira grossa. Seu punho verteu sangue imediatamente, mas ele não sentia a dor, só aquela fúria cega pela consequência de ter trazido aquela mulher para a vida de todos.
Fechando os olhos por um momento, ele tentou aplacar a ira, respirando fundo.
A mão forte de Ícaro segurou seu pulso com força.
- Não faz isso, porra! – A voz dele tinha um tom ríspido e preocupado. – Nada vale esse preço, Vitório! Que caralho!
Ícaro o puxou pelo pulso, fazendo ele se voltar.



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