Vitório
Deixar Lucila no Instituto Mãos Ativas nunca foi tão difícil. Havia tantas coisas que queria fazer com ela nesse momento, tantas palavras que ficaram presas em seu peito. Aquela mulher incrível, seu anjo de luz estava gerando um filho dele.
Isso parecia surreal, um milagre, uma incrível dádiva dos céus.
Vitório dirigia rumo à Acrópole com o coração tão cheio que parecia prestes a explodir, mediante a tudo o que sentia. A alegria de saber que teria um filho com Lucila, a mulher que amava com cada fibra de seu ser, se misturava à sensação de irrealidade.
Era como se o universo, depois de tantos erros, perdas e dores, finalmente tivesse se compadecido dele, lhe entregando uma nova chance de viver a paternidade em sua forma mais pura e completa. Pensava em Olavo, naquele menino que roubou o seu coração e a quem jurou nunca abandonar.
Não esteve presente em sua chegada ao mundo, não presenciou os primeiros passos, nem ouviu as primeiras palavras. Mas agora seria diferente. Cada batida do coração desse novo bebê seria também uma batida em sua própria vida. E o melhor de tudo, Olavo estaria ao seu lado, vivendo cada momento, cada descoberta, sendo parte dessa nova história que se construía não apenas para ele e Lucila, mas para toda a família.
Quando estacionou diante da torre de vidro e aço, nada parecia capaz de arrancar dele aquela sensação de plenitude. Subiu os degraus da entrada com leveza, sentindo-se em um estado raro de paz, como se cada detalhe ao seu redor fosse apenas um pano de fundo para a promessa que carregava no coração.
Porém, ao atravessar o saguão e chegar ao elevador privativo, uma estranha tensão no ar começou a chamar sua atenção. Os olhares discretos, os sussurros abafados, denunciavam que algo grave havia acontecido.
Ainda assim, recusava-se a permitir que aquela nuvem carregada que parecia pairar sobre todos, invadisse sua alegria. Somente quando as portas do elevador se abriram no andar da presidência, e ele encontrou sua secretária rígida em sua mesa e, logo adiante, Roberto aguardando-o em sua cadeira de rodas, com um olhar grave e compenetrado, o instinto de sobrevivência o atingiu como um soco.
Algo sério, potencialmente grave, estava prestes a ser revelado e poderia roubar toda a felicidade que acabou de florescer dentro dele.
- Bom dia. – cumprimentou sua secretária.
- Bom dia, Sr. Darius. – ela respondeu, em seguida olhou discretamente para o homem na cadeira de rodas, vestido com roupas informais. – Este senhor está o aguardando há algum tempo.
- Roberto... – ele o cumprimentou.
O homem de poucas palavras que conhecia muito bem, acenou com a cabeça e manteve o olhar sério.
- Bárbara, veja se o Dutra está disponível, e peça que venha à minha sala. Não quero ser interrompido por ninguém além dele.
- Certo, senhor. – disse ela, já pegando o telefone sobre a mesa.
- Me siga, Roberto.
Assim que a porta de sua sala se fechou atrás dele, Vitório viu uma série de pastas sobre a sua mesa. E uma delas resolveu o enigma da tensão que sentiu ao entrar na Acrópole. Se tratava da Strauss, a maior parceira de negócios da Acrópole, uma gigante da hotelaria que se concentrava na Europa, regida pelas grandes habilidades empreendedoras do dono e CEO, Hans Andersen.
- Vitório, que porra aconteceu com você? – a voz de Roberto estava carregada de tensão.
Ao ver o nome da Strauss, por um instante até se esqueceu da presença de seu amigo e colaborador.
Só o fato de ouvir o seu nome dessa forma, era uma afronta intolerável. O ódio que sentia por essa puta maldita não era comum, se tratava de um ácido que corroía cada pensamento, uma chama inclemente que pedia vingança incessantemente.
A lembrança do olhar perverso e sugestivo dela, dos lábios que mentiam e sorriam enquanto tramavam sua desgraça, fez seus punhos se fecharem até estalar os nós dos dedos. Ele a queria diante dele, não apenas derrotada, mas destruída, reduzida à própria insignificância, implorando por uma clemência que ele jamais concederia. Mais do que puni-la, Vitório ansiava por arrancar dela cada máscara, cada soberba, cada gota de veneno, e fazê-la sentir na pele cada tormento que ela impôs.
Nada de uma morte fria, limpa e rápida para essa vadia dos infernos. Estava pronto para vê-la sofrer por horas, até que ela mesma desistisse da vida, mas ele não a deixaria morrer. Faria ela reviver todo o terror de novo, até que não restasse mais nada.
Astrid não era apenas um inimigo infeliz.
Ela era o próprio inferno em forma de mulher, e Vitório jurou naquele instante que, dessa vez, ele não descansaria até vê-la arder nas chamas do inferno que ela mesma acendeu.
- Vitório, ela tramou algo grandioso dessa vez. Não fez questão de ocultar sua presença quando desembarcou, parecia até que queria ser vista. Antes que pudéssemos identificar quem a acompanhava, nós fomos derrubados, e até agora não conseguimos restaurar nenhum dado e nenhuma rede. Estamos no escuro, Darius. E ela é o diabo que....
Antes que Roberto pudesse terminar a frase, Vitório já estava saindo pela porta.
LUCILA ...
OLAVO...
Seus nomes gritavam em seu interior. O som de seu coração disparado, era ensurdecedor.

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