Astrid se sentiu incomodada pela falta de reação, e continuou.
- Sabe, não é nada pessoal contra você, querida. – Ela disse se sentando confortavelmente na poltrona estofada de cor cinza. – Mas infelizmente para você, Vitório e eu temos uma história muito mais antiga e profunda que qualquer coisa que você ACHA que tem com ele. – Astrid cruzou as pernas elegantemente, e sorriu cínica, quando Lucila não fez nenhuma menção de se mover. – Eu sei que isso é um choque para você, afinal fomos cunhadas, mas a verdade é que ele teve que se casar com você para cumprir com a vontade do pai. Brigamos muito por isso, sabe, mas no final, Ícaro e eu nos conhecemos e ele se apaixonou por mim. Me casei com ele por vingança, é verdade, mas o Vitório nunca se afastou de mim de verdade. Nossa relação é muito... – ela pareceu pensar na palavra correta para usar. - ... intensa.
“Ela vai falar do Vitório como se ele a amasse, como se não pudesse viver sem ela. Não se deixe abalar, tudo o que aquela vadia quer é que você o odeie.”
Lucila desviou seus olhos por um momento. Mesmo sabendo qual era o propósito dessa vadia, era muito difícil ouvi-la falar como se eles ainda fossem um casal. E imaginá-la tocando em Vitório, não estava ajudando em nada.
- Não fiquei tão chocada, querida Lucila. – Astrid disse, alargando o seu sorriso. – Aceite que esse casamento só te machucou e vá embora. Nada na vida que está levando é seu. – Astrid se levantou, seus olhos claros ficando mais afiados quando ela se inclinou para mais perto. – O Vitório é meu, sempre foi meu, e aquela criança que você acolheu acreditando que era um pobre órfão, é na verdade o nosso filho. O Olavo, tem os mesmos olhos do pai, você não acha? – ela zombou, com um brilho cruel tingindo seus olhos.
Lucila sentiu o vômito subir por seu esôfago, lhe causando dor e desconforto. Mas ela engoliu em seco e se manteve firme, encarando essa mulher maquiavélica com total desprezo.
Nem mesmo sabia por que em algum momento temeu esse confronto. Astrid era um ser pobre de espírito, alguém que não sabia o significado de algo belo como o afeto. Ela nem mesmo merecia o título de mãe, não era digna do carinho do próprio filho. Como Vitório poderia amar alguém como essa mulher? Não, ele nunca amaria alguém assim. Ela não tinha nada, nenhum calor, nenhuma luz, nenhum sentimento ou emoção nobre. Tudo o que essa pessoa diante dela representava era um enorme e profundo abismo frio e escuro.
Agora, parece até irreal aquele sentimento de inferioridade que sentiu desde que soube da existência de outra mulher na vida dele. Astrid não era uma adversária, nunca foi. Ela nunca chegaria perto da posição que Lucy tinha no coração de Vitório.
As lembranças criadas com ele, com Olavo, surgiram aquecendo ainda mais seu coração. Seus olhos arderam, não de raiva, decepção ou sofrimento, como essa mulher miserável queria. Mas de emoção.
Foi escolhida por Vitório para ser sua esposa, ele tomou essa decisão por livre e espontânea vontade, ele decidiu ficar, segurar sua mão. E fazer dela a mãe de seus filhos. Olavo também a escolheu como mãe, e agora havia um bebezinho que crescia em seu ventre que seria parte dessa escolha a qual foi abençoada.
O que Astrid tinha?
Ameaças?
Os olhos de Astrid, arregalados, faiscavam de um ódio insano, e o rubor em suas faces denunciava um descontrole que chegava às raízes da histeria. Ela oscilava entre a fúria e um prazer doentio, como se encontrar resistência fosse o combustível de sua insanidade.
Lucila, em silêncio, observava cada detalhe, os lábios retorcidos em um sorriso perverso, os gestos convulsivos das mãos como garras prestes a atacar, a destroçar o seu alvo. Astrid parecia consumida pelo próprio veneno que sempre despejou sobre os outros.
Para Lucila, foi como enxergar a essência daquela mulher, não uma rival poderosa, era só uma casca sem alma, alimentada por sua própria obsessão. E, mesmo assim, o arrepio que percorria sua pele, deixava claro que aquela loucura era perigosa, e Astrid seria capaz de qualquer coisa para ter o que queria.
Lucila quase se traiu, instintivamente queria levar as mãos ao ventre. Mas se forçou a se manter altiva e séria.
- Você vai desejar nunca ter feito isso, muda maldita. – ela disse, pouco antes de se virar e sair, deixando a pasta preta para trás.
Ouvindo a porta bater atrás dela, Lucy finalmente relaxou. Pensou que se sentiria fraca, drenada de suas energias, mas se sentia ótima. Desferir um tapa na cara daquela víbora foi como finalmente despertar sua força. Acariciando seu ventre, ela sorriu levemente, nunca mais deixaria ninguém transformá-la em um objeto para descarregar sua raiva e frustração. Ela era forte, era uma mulher capaz. Essa Lucila, era esposa e mãe, e nunca mais seria agredida, humilhada ou presa em um freezer novamente.... Ela era Lucila Darius.

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