Beth
Lucila Darius foi uma surpresa excepcional.
Ao adentrar seu escritório, Beth foi golpeada pelo impacto de sua aparência. Os olhos extremamente azuis profundos, os traços do rosto, o cabelo escuro e brilhante. Ela era uma versão feminina de seu pai, Christian Clintwood.
A Sra. Darius gentilmente pediu que ela se sentasse, através das libras. Após as apresentações, Beth teve que se concentrar muito para conseguir focar no motivo de estar ali.
Entretanto, até o jeito de Lucila sorrir lembrava o do seu pai.
Subitamente se sentia curiosa sobre ela. Quantos anos tinha? Qual era seu sobrenome de solteira? Quem eram seus pais?
Mas tudo isso tinha que ser deixado de lado por enquanto, afinal de contas, não queria fazer dessa primeira conversa uma situação bizarra.
- Eu sinto muito por incomodá-la. – disse novamente. – Mas tenho um assunto da casa Andersen para resolver ainda hoje, e alguns pontos me trouxeram até o Instituto.
“É claro. Em que posso ajudá-la, senhorita Clintwood?” perguntou Lucila Darius através das libras.
- Estou contratando uma nova funcionária que ficará responsável por uma área restrita da casa. O nome dela é Bianca Viana, a entrevistei mais cedo e ela me disse que tem um relacionamento de longa data com um dos seus médicos. O Dr. Eric Mastrangello DelaVille.
Uma sombra sutil passou pelo rosto de Lucila, trazendo para Beth a confirmação de que Bianca realmente poderia estar mentindo, ou pior, ser alguém problemática.
Particularmente, não achava que a Srta. Viana deveria sequer entrar na propriedade Andersen. Ela era um tanto... singular, e parecia perturbada quando falava do namorado. Entretanto, por algum motivo, Hans que assistiu a entrevista do seu escritório, achou que a mulher era perfeita para lidar com Astrid.
Mas para Beth, seria o mesmo que jogar dois abutres famintos dentro de uma jaula. Alguém ia se machucar.
“Entendo. – gesticulou Lucila depois de alguns minutos. – Mas temo que não poderei ser útil para a senhorita. Eu não conheço essa pessoa. A vi somente uma vez aqui à procura de Eric, e pelo que entendi, eles não têm um relacionamento há muito tempo.”
- Me desculpe por ter tomado o seu tempo com isso. – respondeu Beth, de repente se sentindo incomodada com a mentira de Bianca. – No entanto, se não se importar, seria possível falar com o Dr. DelaVille?
“Sem problemas. – ela consultou o relógio. – Se quiser tentar falar com ele, eu mesmo a levo até a sala de atendimento. Mas acredito que a essa hora, Eric já deve ter saído para buscar a filha no colégio.”
- Tudo bem, eu não quero atrasá-lo. -- Beth fez uma pausa se levantando. – E pensando bem, acredito que não será necessário, o pouco que conversamos sanou minha dúvida mais importante em relação a Srta. Viana.
Estendendo a mão para se despedir, Beth sentiu um imenso carinho brotar em seu peito ao vê-la sorrir. Uma saudade enorme de seu pai bateu forte, e ela sentiu seus olhos marejaram. Eles eram tão parecidos...
A traição de seu pai.
Naquela época, Beth era pequena, mas se lembrava claramente de sua mãe ameaçando privar o seu pai de vê-la, depois de descobrir que ele se envolveu com uma mulher qualquer no Brasil, antes de se mudarem para Zurich. Christian não negava o envolvimento, mas disse que foi antes de conhecer a mãe de Beth.
Entretanto, a sombra dessa traição destruiu o casamento deles. Sua mãe se sentia negligenciada por seu pai, por ele trabalhar muito, disponível para o Sr. Andersen vinte e quatro horas. E em uma noite, ela saiu para curtir e deixou Beth sozinha, e isso se tornou um hábito constante.
Até que Dohler descobriu o que ela estava fazendo, e a seguiu. Ele a encontrou tendo um caso em um hotel de quinta, com um empresário medíocre que era casado. Quando Christian soube de tudo, ele a mandou embora. Ela tentou levar Beth, mas o Sr. Andersen intercedeu, e ela acabou indo embora sem olhar para trás.
Beth nunca mais teve notícias dela.
Christian a criou sozinho, mas o que aconteceu o marcou de forma irreversível. Ele morreu pouco antes de Beth terminar o colégio, teve uma forte pneumonia que evoluiu para uma sepse em questão de dias.
Se não fosse por Dohler, e por....Hans, estaria sozinha no mundo.
Mas e se Lucila Darius fosse fruto desse envolvimento de seu pai com a outra brasileira, antes dele conhecer sua mãe?
Seria possível?

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