A grande montanha russa surgiu depois de uma curva pela rua de acesso central ao circuito do parque.
Vitório diminuiu a velocidade, e estacionou na primeira vaga que encontrou. Encontrar Lucila e seu filho, era a maior prioridade.
Só de pensar neles perto daquele desgraçado, já sentiu seu sangue ferver pela ira incessante. Seu instinto nunca o enganou, aquele doutorzinho o incomodou desde o primeiro momento em que colocou os olhos nele.
Trazer a ex-namorada louca de volta não foi o bastante, então agora estava na hora de resolver as coisas de uma forma mais eficiente.
Pegou o celular e enviou uma mensagem para o novo segurança, pedindo a localização exata de Lucila e Olavo.
Enquanto aguardava a resposta, Vitório esquadrinhou o lugar. Os rostos felizes de vários adultos e inúmeras crianças, criava um ambiente lúdico e muito barulhento. Mas a risada alegre, parecia uma zombaria diante de tudo o que sabia sobre aquele homem que estava com sua esposa.
Como se não bastasse ter que lidar com uma psicopata vadia, agora tinha outro verme imundo tentando infestar a sua família, bem debaixo do seu nariz.
- Devia ter te mandado para o inferno, seu infeliz de merda. – Murmurou para si mesmo.
Era muita audácia ou a obsessão do doutor o consumindo. Porque foi o claro o suficiente, com os “avisos” que deu a ele. Depois da invasão no escritório de Lucila, Vitório contratou um profissional americano de Harvard para revisar todas as teses de Eric apresentadas nas inúmeras revistas e universidades brasileiras.
Muitas delas eram incompletas ou improváveis. O prestígio do doutor começou a ruir.
As inúmeras contribuições do centro de pesquisa que ele mesmo fundou foram cortadas, fazendo Eric DelaVille se encontrar em uma situação bem complicada no momento.
No entanto, o doutor não entendeu o recado. E continuou no Instituto, evidentemente para ficar perto de Lucila.
A localização de sua família chegou. A montanha russa, a poucos metros do carrossel enorme que estava à frente de Vitório. Seus passos firmes cortavam a distância com agilidade, se desviando de balões, bolas de sorvete e crianças eufóricas.
A primeira vez de Olavo num lugar como esse teria que ser interrompida dessa forma abrupta. Era uma pena.
Se aproximando da alta estrutura de ferro, onde um longo carrinho iluminado por leds corriam velozmente, Vitório pode ver de relance o rosto sorridente de seu filho, ao lado de uma garotinha de cabelos castanhos.
Próximo ao brinquedo, localizou Lucila.
Ela estava de costas, seu longo cabelo negro descia até a cintura, e ao seu lado, o doutor com todos os dentes reganhados, tentava tocá-la de forma descontraída.
Vitório enxergou tudo vermelho.
- Maldito verme desgraçado!
As pessoas ao seu redor sumiram, quando a mão do outro homem pousou no ombro desnudo de sua esposa. A boca dele ainda se movia quando Vitório o acertou em cheio com o punho cerrado. Com o impacto, o doutor foi jogado no chão, respingando sangue em sua roupa. Vitório não deixou que ele situasse, e agarrou seu casaco enquanto socava repetidamente seu corpo. O rosto confuso de Eric DelaVille foi se tornando uma massa vermelha disforme, pontas firmes de dentes entraram na carne dos punhos de Vitório, mas ele não parou.
Não havia dor.
Só a revolta.
Como ele ousava tocá-la?!
Como aquele ser nojento que desejou uma criança poderia ser tão asqueroso a ponto de persegui-la e se atrever a tocá-la.
Não...
Foi então que percebeu que estava de joelhos, lavado de vermelho, seus punhos ainda fechados estavam pingando.
Queria ouvi-la de novo, queria que ela o chamasse novamente. Mas só o som de seus soluços, e o barulho das conversas urgentes a sua volta existiam agora. Por um instante, queria voltar aquele momento em que ela gritou por ele, era tão lindo o som de sua voz.
- A polícia tem que te levar... ele não está respirando. – A mão de Ícaro tocou o seu ombro, o fazendo saltar. – Vamos, cara, precisa reagir. Tem abutres por todo lado, e sua mulher e seu filho estão aqui.
Aquelas palavras pareciam conter uma ordem além da consciência. Se levantando, ele olhou para Lucila, e esboçou um leve sorriso.
- Vai ficar tudo bem, querida. Ele não vai te machucar.
Em seguida, Ícaro o empurrou para dentro do carro, olhando para o assento traseiro, procurou por sua família, mas eles não estavam lá. Seu irmão falava sobre advogado, justiça, processo criminal e coisas que não chegavam a compreensão.
Mas então, pensou em Lucila se encolhendo quando DelaVille a tocou. E perguntou rudemente.
- Ele está morto?
- Reze para que não. – respondeu Ícaro exasperado. – Não é assim que fazemos as coisas, porra. Se ele estava dando em cima da Lucy, tudo o que tinha que fazer era...
- Se ele não estiver morto, me avise. – Vitório cruzou as mãos encharcadas atrás da cabeça. – Vou me certificar que ele morra. Se não for hoje, vai ser amanhã.
- Mais que caralho você está falando?! – ralhou Ícaro ao seu lado. – Tem noção da merda que fez?
- Não me importo. – respondeu verdadeiramente. – Desde que tenha certeza de que ele nunca vai tocá-la ou desejar outra garotinha angelical.

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