Lucy
A presença de Bettany Clintwood ali na sua sala de estar ainda parecia irreal para Lucy.
Não conseguiu apagar seu rosto e muito menos a sensação de ternura que sentiu ao vê-la, portanto estar com ela era de certa forma, um presente.
O motivo da visita não importava.
Sinceramente, não acreditava na hipótese que Vitório levantou. Bettany não parecia do tipo que praticava o mal, mesmo através de manipulação, então, não acreditava que ela estivesse ali por ordem de Astrid.
Lucy tentou se arrumar de forma mais informal, para deixá-la mais à vontade, mas não havia nenhuma roupa desse tipo que cobrisse o estado de seu corpo! “Eu te mato, seu bruto!” Ela pensou, ao ver a reação de Bettany, quando adentrou a sala vestida com um terninho francês e blusa de gola rolê.
Bettany parecia constrangida, e depois de vê-la assim, ficou ainda mais nervosa.
Lucy suspirou, e caminhou até ela devagar. Não havia parte do seu corpo que não doía, era como se tivesse passado no moedor de carne ou algo parecido. Sem falar em sua intimidade... que estava tao inchada e sensível que até o toque do tecido macio da calcinha, era uma tortura.
“Você me paga, lobinho!” ela pensou, evitando fazer uma careta de dor, quando Beth a cumprimentou suavemente.
- Me desculpe por fazê-la esperar, Srta. Clintwood. – disse, com o sorriso mais doce que conseguiu elaborar.
- Por favor, me chame de Beth. – Ela parecia surpresa e até mesmo desconcertada. - Sou eu quem deve pedir desculpas, por fazê-la me receber nessas condições.
Se perguntava o que a surpreendeu tanto. Ela não esperava ser recebida, era isso?
Mas então teve um estalo.
Bettany estava chocada porque para todos, Lucila era muda.
- Deve estar surpresa por me ouvir falar. Mas é algo recente com o qual ainda estou lidando. Gostaria de pedir a sua discrição. É uma informação sigilosa para nós.
Por um ou dois minutos, Beth parecia fascinada em ouvi-la. Depois de um tempo, ela só anuiu e disse.
- É claro, eu compreendo perfeitamente. Só fiquei muito surpresa e maravilhada. Estou feliz que esteja falando novamente.
- Obrigado. – Lucy sorriu levemente. – Agora me diga, em que eu posso ajudá-la, Beth?
Ela ficou repentinamente inquieta, sentada na poltrona.
– Sei que parece estranho, e incomum, mas eu tinha que vê-la, principalmente depois das notícias envolvendo vocês. Gostaria de oferecer minha solidariedade.
Lucy sentiu aquela onda de ternura novamente. Ela veio porque ficou preocupada com o que aconteceu no parque, era realmente um gesto muito bonito e caloroso.
- Muito obrigada, Beth. – Agradeceu, se movendo lentamente para trocar de posição.
“Ai que dor! Por que esse encontrou tinha que ser hoje, que fui destruída por aquele troglodita bruto!”
- Deve estar surpresa com a minha preocupação, um tanto inesperada, mas Sra. Darius...
- Lucy. – ela corrigiu. – Se posso te chamar de Beth, você pode me chamar de Lucy.
Os olhos dela brilharam, e pareceram ficar úmidos. Lucy forçou o olhar tentando ver melhor, mas estava tão cansada, que não duvidaria que estivesse grávida.
Onde já se viu, fazer o que ele fez com uma mulher grávida! Aquele...
- Está tudo bem?... – Beth perguntou, se sentando ao lado dela.
O choque foi tão grande que ela sentiu como se estivesse fora de seu próprio corpo. Irmãs?
Como isso poderia ser possível?
- O meu pai... quer dizer, nosso pai. Eu tenho certeza que não estou enganada, afinal, você é a cópia dela...- ela sorriu nervosa, apertando as mãos no colo. – Meu pai se chama Christian Clintwood. – Ela tirou o celular da bolsa, e lhe mostrou a tela. – Essa é uma das últimas fotos dele, antes de falecer.
A imagem mostrava uma versão masculina de Lucy. Mais velho, é claro, mas os olhos, os traços, o sorriso, os cabelos... Tudo remetia a aparência e o jeito de Lucila.
Ela nunca conheceu seu pai biológico. Quando teve idade o suficiente para descobrir quem ele era, acabou desistindo, pois sua mãe biológica informou ao orfanato que não sabia quem era o pai, pois ela vivia da prostituição na época.
Lucila nunca quis conhecer um homem que procurava por prostitutas para se satisfazer. Isso era asqueroso, na concepção dela.
- Me desculpe, eu... acho que deve haver um engano, eu... – ela não queria pensar nisso.
Lucy sentiu seus olhos arderem. Quando foi resgatada pela polícia, sua mãe estava fora de casa há quase dois dias, ela a deixou com um pacote de biscoitos e um pote de água usado para cães. No barraco em que ficou presa chorando com fome e com frio, não havia janelas, Juliana, sua mãe biológica não se importou em abandoná-la.
Ela precisava vender seu corpo para comprar suas drogas.
Não queria pensar naquilo, nem pensar que homens como Clintwood pagavam para ter horas com uma viciada sem pensar nas consequências.
- Podemos fazer um teste de DNA, se você quiser. – Beth chorava entre um sorriso esperançoso. Algo que não alcançava Lucila, porque ela estava de volta ao buraco imundo de onde saiu. - Lucy, eu sei que é demais para aceitar, mas meu pai nos contou que teve alguém antes da minha mãe, e tinha certeza que ela engravidou. Ele tinha procurado por ela, mas ela desapareceu quando ele não quis dar mais dinheiro...
- Vai embora... Por favor, vá embora... – ela disse, se levantando com dificuldade.
Seus olhos embaçados a impediam de ver direito. Ela precisava sair dali, apagar aquela sensação de sujeira, de podridão que voltou a suas narinas. Não queria lembrar, nem pensar neles....
- Espera, eu... – a voz quebrada de Beth a seguiu, fazendo Lucila chorar ainda mais.

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