Vitório
Quando Lucila chegou, ela estava diferente da mulher confiante e decidida que saiu por aquela porta.
Ele foi para o lobby assim que a ouviu conversando com Mila. Ela estava um completo caos, parecia preocupada e aflita, mas antes que pudesse abraçá-la e perguntar o que houve, Olavo desceu as escadas correndo e partiu para ela, seus olhos brilhando de amor pela mãe.
Imediatamente Lucy sorriu, abrindo os braços para ele, o abraçando forte e girando com seu filho.
- Meu menino... – ela disse, o enchendo de beijos. – Como foi na escola hoje? Entregou seu projeto de robótica.
- Sim mamãe, a professora disse que tenho muitas chances no campeonato de invenções, e...
Os passos de Vitório foram interrompidos pela vibração de seu celular. Ele o pegou e viu o nome de Ticiano na tela. “Que porra aconteceu agora”
Ticiano era muito educado e comedido para ligar para alguém na hora do jantar. Criado por uma família italiana, ele absorveu seus valores, e para eles, as refeições eram sagradas.
- O que foi? – atendeu.
- Não tem como amenizar isso, então irei direto ao ponto. – Ticiano parecia apressado do outro lado da linha. – A Astrid fugiu. Ela fez uma funcionária refém e depois se misturou ao pessoal da limpeza dos arredores. Hans Andersen está escondendo o fato, obviamente para evitar escândalos.
- Aquele desgraçado, filho da puta! – Vitório praguejou, saindo pela porta lateral que levava a área de chá sob a pérgola que Lucila adorava. – Onde está o Roberto e o Tiago?
- Estou com o Roberto, ele descobriu essas informações há pouco. O pessoal do Andersen vem fazendo um bom trabalho para conter essa porra.
- Mande-me me enviar tudo o que descobrir por e-mail, eu preciso de algo para trabalhar. Se aquela lunática conseguiu sair daquele lugar, então ela está preparando algo grande para me atacar.
- Ele vai enviar. Está cruzando os dados que conseguimos com a segurança tática do Andersen. Conseguimos alguém lá dentro, agora sempre estaremos a par do que estiver acontecendo no prédio.
- Ótimo. E o Tiago?
- Está na rua com o pessoal. Ele quis ir pessoalmente a campo. Pegar a Astrid virou questão de honra para ele.
- Vou estar esperando atualizações. – Vitório olhou para a janela.
Lucila o procurava com um olhar preocupado, o esperando para o jantar. Ela teve um dia difícil e não poderia dar o alívio que ela precisava, pois agora teriam que lidar com essa situação com aquela vadia psicopata.
Ele se viu de volta àquele quarto da Masmorra Diè, ao cheiro de couro, vinho e perfume francês extremamente doce, à sensação sufocante da luxúria e do poder que o cegavam.
Cada gemido, cada ordem, cada toque daquela mulher era um lembrete grotesco da besta que ele havia sido; um homem viciado no controle, escravo da própria necessidade de dominar, possuir e destruir aquilo que comandava.
Sentiu-se imundo.
Não apenas por ter tocado Astrid, mas por ter se perdido naquele abismo e gostado da escuridão enquanto ela o devorava. Ele realmente chegou a acreditar que aquela compulsão, fosse sentimento. Pensou que a amava. E ela se aproveitou disso, o incitando a ir cada vez mais fundo na ânsia de dominá-la e possuí-la o tempo todo.
Com a respiração entrecortada, ele ergueu o olhar e o fixou na janela ampla da sala de jantar. Lucila, sorrindo com doçura para Olavo que abraçado a ela contava algo sobre seu dia. O brilho sereno de uma família que acreditava no homem que ele fingia ser.
“Você não é digno deles, Vitório. Somos escuridão. Você e eu não somos iguais. Trazemos caos e destruição por onde passamos.”
Era como se estivesse ali, soprando em seus ouvidos. Aquela maldita puta desgraçada.
A vergonha o golpeou mais forte do que qualquer soco que já levou na vida. Aqueles rostos inocentes não sabiam quem ele realmente era de verdade. Não sabiam que o sangue que pulsava em suas veias ainda carregava a sombra de tudo o que fez.
Por dentro, sentia-se defeituoso, manchado, como se toda pureza que Lucila via nele fosse apenas uma miragem. O amor deles era real, mas ele… ele era o erro dentro da perfeição da existência dela. E, naquele instante, Vitório se sentiu como se jamais se libertasse daquilo que um dia foi, o monstro que aprendeu a vestir um terno e a sorrir.

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