Lucy
O silêncio incômodo não era típico da mesa dos Darius.
Entretanto, não pretendia abordar esse assunto na frente de Olavo, que era o único que conversava animadamente sobre o torneio de xadrez que estava chegando no colégio, ainda esse mês.
Vitório permanecia concentrado na tela espatifada do celular, que segundo ele, caiu do bolso enquanto falava com Ticiano lá fora. Mas Lucy o conhecia bem demais para acreditar naquela mentira.
Certamente, ele recebeu a notícia da fuga de Astrid, e isso estava o afetando mais do que ela tinha previsto.
O peso sobre os ombros de seu marido era enorme, e ela podia sentir que ele mais uma vez tentava segurar o mundo sozinho.
O jantar se encerrou, e ele subiu para contar uma história para Olavo e por o pequeno para dormir. Lucy ainda ficou sentada à mesa remoendo aquele comportamento distante e preocupante.
Quando Mila veio retirar a mesa, ela ainda estava lá olhando para a sua taça de cristal vazia.
- O que ainda está fazendo aqui, menina? Deveria estar descansando. – Mila disse carinhosamente. – Lembre-se que está grávida e depois de um longo dia como hoje, precisa de um bom descanso.
Lucy se levantou, acariciando seu ventre.
- Você tem razão, Mila. – ela suspirou. – Mas o que a gente faz quando a nossa cabeça não permite esse descanso?
Mila deixou a pilha de pratos no carrinho de servir, e se voltou para ela, segurando suas mãos.
- Você resolve primeiro as inquietações na sua cabeça. – ela acariciou suas mãos, sua pele enrugada contrastando com as de Lucila. – E se não puder resolvê-las hoje, de um pequeno passo para amanhã dar um maior.
- Acho que eu deveria ter feito isso há muito tempo. Mas fiquei parada no caminho, temendo o que me esperava no meu caminhar. – Protelar conversas importantes com Vitório se tornou um hábito confortável.
Ela não queria que tudo o que tinham se desvanecesse no ar, como uma linda bolha de felicidade frágil e volúvel. Portanto, evitou a todo custo falar dele com aquela prostituta repugnante. Talvez, estivesse errada, mas agora tinha que enfrentar essa situação, pois saber do passado de Vitório poderia ajudar a acabar de vez com essa vulnerabilidade entre eles.
- Se pensa assim, não perca mais tempo. – Mila a abraçou. – Mas não fique tão preocupada com passado e futuro, menina. O presente é uma dádiva, e ele não volta mais.
Lucy a beijou carinhosamente no rosto, e saiu, desejando uma boa noite.
Subiu as escadas lentamente, ponderou sobre todo esse tempo em que estavam juntos.
Não...
Não acabaria por causa do passado de Vitório.
Ele era o seu primeiro amor, seu ogro encantado, seu marido, o pai de seus filhos. Não deixaria que as coisas acabassem por causa de alguém tão podre e desprovida de emoções nobres como aquela mulher.
Passando pela porta entreaberta do quarto de Olavo, ela o viu sentado na beira da cama do filho deles. Vitório acariciava a fronte adormecida do menino, ele parecia perdido naquele momento.

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