A revolta apertava seu coração com as mãos de ferro. Alguém devia ter percebido, e parado aquela mulher. Ela tinha que ser presa, e pagar por seus crimes!
- O Ícaro não desconfiou dessa mulher? Como ele pode não enxergar que ela estava envolvida nessa tentativa de assassinato?! – Lucy disse, fungando, se aconchegando no peito dele, buscando a certeza de quem ninguém o tiraria dela. – Eu não consigo entender...
- Naquela época ele estava cego pelos encantos dela. Mas ele me disse que viu coisas que o deixaram intrigado naquela noite. Então ele descobriu o passado que tivemos e juntou dois e dois.
- Foi ela quem roubou minhas coisas... – disse Lucy se dando conta de quão perversa Astrid foi, ao arquitetar essa armadilha maléfica. – Eu não consigo acreditar...eu .... – ela balançou a cabeça em negação.
- Na verdade, ela pagou a empregada, para que roubasse o que ela iria usar. – Ele afagou seus cabelos, limpou seus olhos, e os prendeu nos seus. – Eu nunca te traí, minha princesa. – As lágrimas de Lucy transbordaram novamente, seus olhares presos um no outro. – Não sou bom como você, e nunca tive a sua bondade, mas eu reviraria o inferno por você, pelo seu amor.
- Você não precisa fazer nada disso, meu amor. – Ela o beijou, o abraçando entre soluços. – Meu coração, meu amor, sempre foram teus, Vitório.
Lucila o olhava como quem contempla um sobrevivente, seu herói, o homem que venceu não apenas uma tragédia, mas sua própria mente, seus próprios monstros. Havia algo quase sagrado em ver aquele homem assim, o gigante, o temido, o inquebrável Vitório Darius, despido da própria armadura, expondo o que restou depois que o inferno tentou destruí-lo.
Ela não via culpa nele, mas sim cicatrizes que clamavam por paz. Tocou-lhe o rosto com a delicadeza de quem toca o que é precioso, e as lágrimas, silenciosas, desciam em fileiras quentes por suas faces.
— Eu nunca te mereci, princesa… — ele murmurou, a voz rouca, profunda, os olhos fixos nos dela, como estrelas fugazes. — Depois de tudo o que tive que fazer, depois do homem que fui, eu devia nem mesmo te desejar como minha… Deveria ter apagado esses sentimentos, essa vontade de te fazer a minha Lucila. Mas você... — ele pousou a testa na dela, os dedos tremendo ao acariciar-lhe o rosto. — Você me encontrou no meio dessa escuridão. Me mostrou o que era um amor real, sem medo. Me fez saber que mesmo que seja quem sou, meu coração ainda pode bater por algo puro e poderoso.
Lucila chorou, e suas mãos o envolveram, ancorando-o na realidade, afastando os demônios que ainda o perseguiam.
— Amor, você não precisa mais se punir. — Sua voz saiu trêmula, mas serena, doce como uma promessa. — Eu sei quem você é, Vitório. E não é aquele homem que viveu preso à culpa, ao poder do controle e as sombras do passado. Você é o homem que me salvou, que protegeu o nosso filho, que me ensinou que o amor não precisa ser perfeito para ser verdadeiro.

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