Otávio
A noite tinha o peso das coisas sagradas para Otávio Darius.
Não apenas porque ele estava, finalmente, de volta ao coração da própria família, sentado à cabeceira de uma mesa que por anos permaneceu coberta por silêncio e tristeza, mas porque aquela reunião era a prova viva de que o tempo, apesar de cruel, não havia conseguido destruir o que ele considerava inviolável, o vínculo entre os Darius.
E, acima de tudo, a presença de Adélia e Paula ali, dentro daquela casa, diante daqueles rostos, era a conclusão de uma guerra travada em segredo por mais de uma década.
O salão de jantar foi reaberto para a ocasião como se a casa tivesse acordado de um longo luto.
As paredes altas, ornamentadas com molduras douradas e pinturas clássicas em tons terrosos, refletiam a luz âmbar dos candelabros antigos. Rodolfo, impecável como sempre, fez questão de acender as luminárias de cristal e distribuir velas baixas pela extensão do aparador, criando uma atmosfera acolhedora que lembrava os jantares de antigamente, aqueles em que Isadora sorria no fim da mesa e Otávio, mais jovem e orgulhoso, via o mundo caber inteiro em um único cômodo.
A mesa retangular era grande, pesada, de madeira escura, com detalhes entalhados à mão. Estava adornada com um arranjo exuberante de flores frescas no centro com tulipas vermelhas, dálias cor-de-rosa, lírios amarelos e pequenas flores brancas que pareciam neve delicada. A composição tinha cores vívidas, quase ousadas, como se a própria casa estivesse celebrando o retorno da vida.
A louça fina, guardada há tantos anos, finalmente voltou a cumprir sua função. Porcelanas brancas com bordas douradas, talheres de prata polida que refletiam rostos e risos, taças de cristal tão transparentes que pareciam não existir.
Os pratos principais eram servidos em travessas elegantes. Medalhões ao molho de vinho e ervas, legumes assados com alecrim, risoto de parmesão com lascas de amêndoas, saladas frescas com figos e nozes, além de uma cesta de pães artesanais ainda mornos, com manteiga temperada.
Otávio segurava uma taça de vinho branco, gelado na medida, aromático e suave, e o líquido dourado parecia combinar com o brilho de satisfação que ele sentia latejar no peito. Cada vez que ouvia uma risada, cada vez que via um olhar se iluminar, era como se a vida lhe dissesse “Você não lutou em vão”
À sua direita estavam Ícaro e Amélia. A esposa de seu filho do meio tinha o sorriso calmo, mas os olhos úmidos de emoção contida. Ícaro, apesar da postura composta, parecia diferente naquela noite; havia uma leveza rara nele, uma disposição mais espontânea, como se a presença do pai rearranjasse silenciosamente algo dentro de sua estrutura interna.
Otávio conversava com os dois, alternando comentários sobre a comida, sobre as crianças, sobre detalhes da casa, e principalmente, como não poderia ser diferente, sobre Adélia.
À esquerda de Otávio, Alberto ocupava o lugar com a naturalidade de quem sempre pertenceu aquela cadeira, mesmo quando a vida tentou provar o contrário. Samanta, ao lado dele, tinha um brilho curioso no olhar, o tipo de atenção inteligente que Otávio reconhecia em mulheres que enxergam além do óbvio.
E entre eles, Adélia… Adélia parecia uma estrela tremeluzente prestes a se firmar no céu. Estava linda, apesar do cansaço que o trauma deixou em seu rosto como uma sombra. O vestido azul escuro destacava seus cabelos loiros e o contorno delicado do rosto. Ela segurava os talheres com cuidado, como se ainda estivesse aprendendo a existir em um mundo onde não era necessário pedir permissão para respirar.
Na outra ponta da mesa estava Vitório, seu primogênito, seu braço direito. Tinha orgulho de dizer que aquele homem se tornou o pilar da família, de uma forma tão estoica, que Otávio sentia uma mistura de orgulho e culpa, por tudo o que seu filho enfrentou para ocupar esse lugar.
Vitório conversava com a esposa à direita, oferecendo-lhe pequenos gestos de cuidado que revelavam um amor sólido, construído com carinho. À esquerda dele, Paula permanecia sentada com uma postura discreta, quase retraída. Lucila, ao lado dela, falava animadamente, tentando envolver aquela mulher num abraço verbal, como se quisesse dizer. “Você é muito bem vinda aqui.” Apesar de conversar com Lucy, com aquele sorriso sincero, Paula quase não tocava na comida, muito menos no vinho. Sua taça permanecia quase intacta.

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