Lucila
O jato particular cortava o céu noturno como um fragmento silencioso ligado às estrelas. Dentro da cabine, a penumbra era pontilhada por pequenas luzes de leitura que lançavam reflexos suaves sobre o couro claro dos assentos.
Lucila sentia o aroma sutil de couro e ar condicionado misturado ao leve traço de perfume residual, um sillage discreto de gardênia que escolheu ao se trocar antes de partir. Do lado oposto, Vitório permanecia compenetrado na tela de seu tablet; o brilho frio do display refletia em seus olhos profundos, enquanto ele golpeava a superfície com toques precisos. O zumbido do motor parecia um pano de fundo distante, quase meditativo, mas para ela tornava-se um lembrete incômodo de sua solidão.
Ela ajeitou-se na poltrona, vestindo o vestido azul-marinho de seda leve, salpicado de poás rosa-pálido que balançavam suavemente sobre suas pernas quando cruzava discretamente os pés.
O tecido era confortável o bastante para uma viagem longa, mas ainda assim elegante, em sintonia com a noção de lua de mel perfeita. Fechou os olhos por um instante, tentando dominar o nó no estômago, aquele temor de não conseguir prender a atenção dele, o medo de que cada toque seu provocasse nele ainda mais distância.
Quando adormeceu, foi um cochilo breve e instável. Memórias do altar vinham e iam. O sol poente que beijou o seu véu, o toque suave da mão de Vitório em sua cintura, o brilho contido no olhar dele, mas também a tensão, o distanciamento que se seguiu no jantar.
Cada vez que ela lembrava do comentário sussurrado, “Se não parar de olhar para o meu irmão desse jeito...” um calafrio a percorreu. Dormiu desejando resolver aquela tensão, mas o sonho a levou a campos ondulantes de trigo e ciprestres, com ele sempre distante, alheio.
Um toque leve no ombro a despertou. As pálpebras ainda pesadas, Lucila abriu os olhos e encontrou o perfil de Vitório inclinado sobre ela.
— Vamos aterrissar, Lucila. Aperte o cinto — disse ele, a voz contida, sem nenhum tom de afeto, como se fosse um procedimento mecânico.
Ela assentiu, fechando o cinto com dedos trêmulos, sentindo-se pequena naquele assento largo, diante da presença dela. Ao olhar pela janela, percebeu que o céu já clareava. Os tons de lavanda, pálido azul e um rosado tênue anunciavam o amanhecer toscano.
A bordo, o ar parecia cada vez mais rarefeito, mas o coração de Lucila apertava-se em ansiedade. Ele voltou ao trabalho no tablet imediatamente, e ela escolheu contemplar a paisagem que surgia lá fora, sua mente dividida entre a beleza ao longe e a solidão que sentia mesmo ao lado dele.
O jato tocou a pista privativa envolta em ciprestres que balançavam na brisa fresca da manhã.
Quando a porta se abriu, um sopro de ar mediterrâneo entrou, uma mistura de cheiro de terra úmida, pinhas secas, ervas aromáticas como alecrim e lavanda selvagem, e um leve traço de madeiras quentes queimada no forno. Vitório foi o primeiro a descer, mas ofereceu sua mão e a ajudou a desembarcar, como postura rígida como se aquilo fosse algo difícil para ele; Lucila o acompanhou tentando não prestar atenção a esses detalhes.
Ela sentiu a brisa acariciar seu rosto, despertando-a por completo.
O carro de luxo os aguardava. Vitório a conduziu até o automóvel, sem se aproximar muito dela. No interior forrado em couro claro, ela se sentou perto da janela ampla para admirar o mundo ao redor.
Ao acomodar-se, as colinas da Toscana se estendiam em ondas suaves, vinhedos em fileiras ordenadas, meandros de oliveiras prateadas e trechos de girassóis virados para o sol agora emergente.
As encostas exibiam muros de pedra antiga, e pequenas casas de pedra cor de areia pontuavam o verde. Olhando para o horizonte, Lucila via manchas de névoa baixa dissolvendo-se, revelando montes distantes cobertos de ciprestres altos em fila. A clássica “avenida toscana” que sempre viu em filmes e cartões-postais.
Ela nunca esteve nessa parte da Itália. Visitou Roma e também Milão, mas a Toscana ainda não tinha apreciado.
Ele era mesmo cheio de surpresas. A propriedade era uma casa senhorial renascentista restaurada, os muros espessos de pedra, telhado de telhas envelhecidas, detalhes em estuque suave nos beirais. Ciprestes alinhados conduziam a um pátio interno pavimentado em ladrilhos de terracota desgastados, ladeado por vasos com gerânios vermelhos e ervas aromáticas às janelas.
Ao entrar pela porta de madeira maciça, sentiu o piso rústico de pedra sob os pés, o ar morno misturado a leves traços de madeira queimada na lareira, um aconchego imediato. Mas o vazio ao lado dela persistia, mesmo porque Vitório seguia sem comentar nada, depositando suas malas na entrada e aguardando-a para conduzi-la ao interior.
Eles passaram pelos corredores com tetos de vigas de madeira exposta, paredes em ocre suave adornadas por aquarelas de paisagens toscanas e tapeçarias discretas. Cada sala exalava história, móveis antigos restaurados, uma mesa de jantar de carvalho largo, candelabros em ferro forjado, lanternas de vidro que pendiam do teto.
O aroma de lavanda e limão impregnava cortinas de linho que balançavam pela brisa que entrava pelas janelas. Lucila sabia que ali existia um quarto de casal com vista para os vinhedos e a montanha distante, mas não ousou perguntar. Receava fazer qualquer movimento errado, e provocar irritação maior, ou até mesmo causar mais distância.
Enquanto explorava com os olhos cada detalhe, desde as almofadas estampadas com padrões florais, os tapetes artesanais em tons terrosos, as panelas de cobre penduradas na cozinha rústica, o aroma de pão fresco deixados prontos no forno para aquele momento, seu coração se enchia de melancolia e esperança mescladas.
Ela imaginava cozinhar ali juntos, preparar bruschettas com tomate fresco colhido no jardim, regar azeitonas e hortelã, tomar café na sacada com vista para os parreirais banhados pelo sol da manhã. Mas ao virar-se, ele estava ocupado com o tablete, republicando algum e-mail de trabalho.
Cada clique dele na tela era um lembrete de seu afastamento. Sentiu a culpa pelas atitudes que provocaram a tensão. Estar nos braços de Ícaro numa fração de momento por motivos inocentes, levou Vitório a pensar que ela queria um envolvimento além da amizade com o irmão do meio.
Lucila estremecia por dentro com medo de tê-lo magoado profundamente.

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